As grandes obras autárquicas deviam ser precedidas de debate público e assentarem num consenso alargado. A decisão final cabe sempre aos órgãos competentes, mas a comunidade não devia ser ignorada.

O estádio, com uma opinião pública activa, não teria custado o que custou ou talvez nem tivesse sido construído e, agora, andamos a pagar a extravagância! A actual maioria tem a intenção de investir mais treze milhões no Topo Norte. Aguarda-se o estudo da Deloitte!

Projectos mirabolantes e estudos em barda têm sido apanágio da vida autárquica, sem que os cidadãos prestem a devida atenção.

No âmbito do programa Polis previa-se a construção de um túnel no centro da cidade para criar uma zona pedonal, além da requalificação das margens do Lis e de um novo jardim na Nova Leiria, que veio a ser concretizado por Raul Castro.

O túnel, inútil e caro, morreu às mãos de um movimento de cidadãos com o apoio de dirigentes da oposição e do próprio PSD. O bom senso acabou por imperar e Isabel Damasceno desistiu da obra. Se o túnel tivesse sido feito, Raul Castro não poderia ter acalentado uma cobertura cara e inútil para a Avenida Heróis de Angola nem Gonçalo Lopes lançado um paliativo para a dita avenida, envolto em roupagens coloridas. Os problemas de fundo ficam adiados para altura mais oportuna.

O Plano de Mobilidade, apresentado em 2016, soçobrou perante um movimento cívico e a apreciação produzida por um Grupo de Trabalho criado pela Assembleia Municipal. O documento do Grupo de Trabalho apresentava propostas consensuais que poderiam ter servido de base à elaboração de um estudo mais adequado. A maioria socialista fez-se desentendida e os signatários pela CML e pelo PS esqueceram-se dos compromissos assumidos.

Os actos do poder, às vezes tomados de forma errática e pouco ponderada, carecem de verem debatidos os objectivos, os custos e os previsíveis benefícios para a comunidade.

A democracia não se esgota no formalismo das eleições ou de órgãos que se limitam a funcionar como caixa de ressonância dos decisores.. Leiria tem demasiados problemas para que o dinheiro dos contribuintes e a construção do futuro fiquem reféns das meras opções dos autarcas. A intervenção na vida colectiva devia ser assumida por todos os cidadãos.

Escrito de acordo com a antiga ortografia.

(Artigo publicado na edição de 9 de julho de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)