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É sexta-feira foge comigo

É sexta-feira foge comigo: “A queda”

Uma coisa é ouvir no cinema o gritos pré fabricados, ou as adolescentes que berram nos pátios dos liceus por tudo e por nada, mas outra situação completamente distinta é ouvir alguém que nos é próximo e à nossa frente a gritar de pânico! É um som diferente ao dos filmes. Menos histérico, mais rouco e muito mais sincero. Não nos sai da cabeça assim tão depressa.

Era sábado à noite em pleno coração da zona histórica de uma cidade, num país onde a maioria dos presentes nunca tinha conhecido o medo da guerra, da criminalidade violenta ou de catástrofes naturais. A rua não estava especialmente movimentada e por isso não foi mais grave do que poderia ter sido. O prédio em frente ao bar, simplesmente desistiu de se aguentar em pé e deixou – se cair, como quem flecte os joelhos até bater no chão.

Entre a poeira e o barulho de pedra a cair, as pessoas gritavam, fugiam dali para fora como podiam, acompanhadas de uma salva de destroços que se espalhavam como se alguém tivesse ido despejar entulho no meio da multidão.

Na rua rapidamente deserta, depois de retirados os feridos, estava Moser, o recém-vereador que se preparara durante anos em frente ao espelho para um momento daquele gabarito. O discurso foi igual a um outro que já servira a um ministro, por alturas de umas cheias, tinham passado dois anos.

Tinha dito o que todos esperavam e queriam ouvir, mas como é nas alturas delicadas que vem ao de cima a essência das pessoas, embalado com o seu protagonismo, e com algum medo que lhe imputassem responsabilidades, resolveu improvisar e acrescentou:
– As vibrações da música do bar em frente também deverão ter ajudado àquela situação.

O embaraço foi grande, e mesmo dentro do partido todos concordavam que Moser tinha feito má figura. E como que a fazer lembrar aquelas namoradas que quando lhes perguntam uma opinião sobre uma peça de roupa, torcem o nariz, reviram os olhos, fazem um esgar com a boca e finalmente suspiram contrariadas – “Ai amor tu é que sabes!” – o pobre Moser, que estava à beira do precipício e alguém tinha de lhe dar um empurrãozinho, percebeu e achou por bem ir – se embora.