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É sexta-feira foge comigo: “A pastelaria”

É sexta-feira foge comigo: “A pastelaria”

Ao contrário do café do lado, onde rapazes rijos dizem o seu nome completo a arrotar, aquela pastelaria é mais fina, como os bolos. É frequentada por dois tipos de pessoas: os armados em finos, que não têm dinheiro para manter sequer uma empregada em casa mas que vão para ali cheios de pose lançar as suas frustrações para cima do funcionário, e por senhoras outrora distintas, de uma aristocracia que nunca o foi, mas para quem a ilusão é tudo. Atendidas pelos zelosos empregados de laço preto ao pescoço, calça vincada e camisa branca imaculada, são muito exigentes no que toca ao serviço de mesa e raramente está tudo bem. A meia de leite que vem morna, aquela manteiga que faz bem ao coração mas que nunca há ali, e outras coisas fundamentais, que lhes importunam essa difícil tarefa de viver.

Os empregados têm uma expressão ensaiada que vacila entre a devoção pelos clientes desejáveis e a superioridade porqueira para com os supostos indesejáveis.

A habitual ironia de quanto mais alta é a categoria, mais baixo é o nível, ali assenta como uma luva sanitária. As senhoras, entregues a recordações ou a assuntos mundanos, como o faqueiro incompleto da vizinha, ou da vez em que nas Finanças alguém escreveu mal o seu apelido, o que foi motivo de um escândalo, como se de uma deportação se tratasse, são no entanto a alma daquele comércio.

Tinham visto o franzino empregado tornar-se num homem, casar-se com a empregada tímida da copa, mas por alturas do casamento, apesar de convidadas, não puderam ir, coitadas, tinham um compromisso importante e inadiável, porém quando os dois empregados tiveram a primeira filha, encheram-na de presentes em tons de rosa.

Eram muito peculiares até na maneira como encaravam a morte. Algumas delas primeiro, e depois as outras por sugestão, antes de se deitarem, voltavam a arranjar-se como se fossem sair de casa outra vez.
A finalidade daquele ritual era bastante simples. Deus lhes livre de morrerem durante o sono assim todas desarranjadas.

texto: Pedro Miguel
locução, vídeo, edição, música: Carlos Martins

1 Comentário

  1. Zita Soares

    Está tanta coisa boa aqui…Parabéns Pedro Miguel!

    Responder

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