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Cultura

Garrafões "made in" Alcaria são cerâmica artística de intervenção

Ana Lousada e Carlos Neto pegam em imagens que satirizam a situação política de Portugal e imortalizam-nas como rótulos de réplicas dos típicos garrafões de vinho.

BPN, Cavaco Silva, Alberto João Jardim, Oliveira e Costa ou troika andam nas bocas do mundo – do mundo português, pelo menos. Agora, todos estão “engarrafados” no projeto de cerâmica artística de Ana Lousada e Carlos Neto, dupla de artistas de Alcaria, Porto de Mós, que criou uma coleção de “garrafões de intervenção”.

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Há quem pergunte a Ana Lousada e Carlos Neto se têm medo de represálias por terem criado estes garrafões (fotografia: Joaquim Dâmaso)

A ideia tem reminiscências a 2004: durante o Euro, Carlos Neto quis substituir as bandeiras das varandas e automóveis por garrafões, “um símbolo nacional bem mais forte”. Ficou a intenção.

A concretização veio agora, que a euforia é miragem e a crise aperta. A réplicas cerâmicas dos típicos garrafões de vinho portugueses, juntou montagens satíricas do blogue Kaos In The Garden. Já produziu uma dezena destas peças únicas, vendidas a 45 euros. “Podiam ser mais baratos se fizesse muitos, mas isto ainda é uma peça pouco conhecida e tem custos”.

Apesar do toque kitsch, é evidente que o trabalho tem mais do que intenção artística. “Em vez de irmos para manifestações, fazemos assim a nossa manifestação contra o BPN, a troika, estes governos e tudo o resto que nos está a acontecer e que é aflitivo: o poder económico a dominar o poder político e ninguém faz nada”.

Os garrafões de intervenção são o contributo de Carlos Neto e Ana Lousada para mudar o país. “Isto pode ser uma coisa pequenina. Mas tantas coisas pequeninas, podem-se tornar-se virais e contaminar as pessoas”.

Até setembro, os garrafões integram a exposição do coletivo Três Cês, patente no Museu da Cerâmica, em Caldas da Rainha. Lá, e onde as peças foram exibidas, as reações têm sido positivas.

Mas também já lhes perguntaram se não têm receio de fazer peças arrojadas em que, por exemplo, chamam bando aos envolvidos no caso BPN. “As pessoas têm medo. Fico impressionado com isto, dá-me vontade de fazer mais coisas destas!”, exclama Carlos Neto. Mais: “Para mim seria um prazer se fosse abordado por alguma entidade policial por causa disto. Era uma honra!”.

(Notícia publicada na edição de 14 de agosto de 2013)

Manuel Leiria
manuel.leiria@regiaodeleiria.pt