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Cultura

António Cova. Ouçam-lhe a música mas não tenham medo se o virem na rua

“Lua de luto” é o forte disco de estreia a solo do multifacetado cantautor de Leiria. Com ou sem choque, leia a entrevista a António Cova.

Depilação feminina, prostituição, desemprego, violência, funerais, tudo desconcertantemente cantado sem limites e em ritmo piano jazz, balada de intervenção ou eletro-gipsy. “Lua de luto”, lançado em outubro de 2014, é António Cova a servir-se ao natural no primeiro disco a solo. 

 

De onde vem a inspiração para tudo isto que está em “Lua de Luto”?
Não sei… Sinceramente, não sei. As coisas passam-me pela cabeça e depois tenho uma dificuldade enorme em não as executar, mas também tenho alguma facilidade em me esquecer delas. Portanto, imagina se me lembrasse de todas… Enquanto trabalho, passo grande parte do meu tempo sozinho, junto da natureza, em locais muitas vezes inóspitos, ou em viagem. É nessa altura que as ideias para executar alguma coisa me surgem.

Depilação feminina, desemprego, prostituição, morte e funerais são temas apresentados neste disco, em composições que vão da balada de intervenção ao piano jazz, passando pelo electro-gipsy. Como é isto?
Não conseguiria retratar musicalmente outros temas que não estes. Todos os temas são reproduzidos efusivamente nos meios de comunicação diariamente, mas existe dificuldade em apresentá-los numa canção sem que quem os oiça não fique chocado perante a perplexidade dos mesmos. A música tem esse poder especial nas pessoas. O que me motiva não é a estupidez, o prazer em chocar ou motivos de alerta, mas sim o facto de gostar de contar histórias num formato que me agradaria ouvir, se fosse cantado por outros. Este álbum é musicalmente muito diverso e é o reflexo de eu apreciar todos os géneros musicais existentes, sem qualquer complexo ou preconceito.

O essencial da vida é sexo e violência?
Não, mas são duas existências estimuladoras de muitas estórias e, sendo assim, não tenho como fugir-lhes. Para mim, o essencial da vida é mantermo-nos vivos.

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António Cova com uma das habituais colaboradoras, Marlene Salgueiro (fotografia: Joaquim Dâmaso)

Quem não deve ouvir este disco?
Crianças ou menores de idade. Os mesmos a quem desligamos a televisão ou mudamos de canal quando está a dar algo que não podem ver, como os noticiários ou a “Casa dos Segredos”.

Chamam-lhe cantautor da dor de corno, mas também Cohen de Leiria ou Adolfo Luxúria do centro histórico… Como reage às comparações?
Já me chamaram de tudo… Menos de David Fonseca de Leiria… Bem, há realmente algumas comparações que poderei interpretar como sendo uma forma de identificarem ou conotarem mais facilmente o meu trabalho. Contudo prefiro – como é óbvio com todo o respeito pelos sujeitos termos de comparação – que me comparem comigo próprio. Quando isso acontecer, dar-me-ei por satisfeito.

Até onde pode chegar este disco? E até onde pode ir António Cova?
Não faço a mínima ideia… Vejo este disco como um registo a partilhar. Tenho a garantia de que não chegará a ser passado numa rádio nacional em horário prime-time. António Cova, só saberá amanhã até onde pode ir. Os meus projetos são sempre “acrescentos de amanhãs”.

O tema “Anos 90 em Leiria” é um tratado sociológico sobre uma Leiria em grande parte já desaparecida…
Este tema vem na sequência do convite que foi feito pela Preguiça Magazine, aquando da criação do Dicionário Leiriense. Os assuntos referidos na letra acabam por ser marcantes para uma geração e só serão compreendidos por essa mesma geração. Não é por isso um tema muito abrangente, mas como, de alguma forma, me foram cenários e situações marcantes, decidi inclui-lo neste álbum.

Porque demorou tanto tempo a sair o primeiro disco a solo?
Ao longo dos tempos fui registando uma coisa ou outra, mas realmente fui sistematicamente adiando esta ideia do álbum a solo. Até que chegou o momento de parar um pouco e pensar em meter cá para fora temas que estavam engavetados. Depois também surgiu a oportunidade de trabalhar em parceria com o meu amigo João Nascimento. Ele tem os meios, a capacidade de produzir os temas e juntando isso ao excelente entendimento musical que temos, foi num instante que a coisa se protagonizou. Contei também com a composição de dois temas por parte de Fabrício Cordeiro.
A oportunidade lançada pela editora Necrosymphonic, também foi importante, sobretudo por admirar o percurso e os trabalhos editados pela mesma.

“Lua de Luto” porquê?
A capa do álbum acaba por ser mais uma estória, que não está incluída no alinhamento. É uma história que é contada apenas com a visualização da capa e que poderá ter a mais variada interpretação. Confere alguma interatividade ao disco. Este título vem na sequência do artwork realizado por João Nascimento, no qual uma noiva é atropelada por um carro funerário no dia do seu casamento. A negritude do álbum é bem resumida nesse título.

O festival Acaso deste ano tem um conjunto de espetáculos que é quase uma secção António Cova. António Cova começa a fazer escola em Leiria?
Não sei… O objetivo não é esse. Mas começo a sentir, sobretudo quando saio de Leiria, que existe quem conhece e acompanha aquilo que tenho feito por cá. Esse sentimento é engrandecido sobretudo quando essas pessoas que me contactam são artistas que admiro há algum tempo mas que não conheço pessoalmente, não existindo assim qualquer tipo de proximidade que parcialize o comentário. Também começo a sentir que em Leiria existe já um público que, de alguma forma, se tem mantido fiel. Algumas vezes sai decepcionado, mas mesmo assim tem mantido a curiosidade em ver sempre o próximo acontecimento. Existe também um grupo de pessoas que admiro e que me acompanham, corajosos com o quais trabalho e que tem sido essenciais na elaboração de todos os projetos. O Nariz – Teatro de Grupo tem demonstrado a abertura e o despreconceito necessários para que as coisas fluam e as perfomances aconteçam.

Quem não conhecer António Cova e ouvir este disco vai ficar com medo de o encontrar na rua?
Tudo pode acontecer quando expomos o nosso trabalho e existirá sempre quem não tenha a capacidade de perceber a barreira que, neste caso, existe entre a criação e o criador. Para mim há uma grande diferença entre quem se retrai, ficando a pensar naquilo que poderão ficar a pensar dele, e aqueles que se arriscam na liberdade de fazerem o que lhes apetece. Essa diferença traduz a possibilidade de fazerem história. Os arquivos não arquivam só obras boas ou obras más e essa decisão está apenas na mão de quem as pesquisa.

Oiça o disco:

Manuel Leiria
manuel.leiria@regiaodeleiria.pt

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