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Acácio de Sousa: “Orfeão até vai ter uma parceria com o Cistermúsica. É muito saudável”

Depois de seis anos na presidência do Orfeão de Leiria, Acácio de Sousa está de saída e considera que a instituição ficará “bem entregue” a Vítor Lourenço, que lidera a única lista candidata a eleições Foto: Joaquim Dâmaso

Nos últimos seis anos arrumou as contas do Orfeão de Leiria, criou projetos de intervenção social e elevou o número de alunos acima das oito centenas. Na despedida da presidência do Conservatório de Leiria, Acácio de Sousa anuncia parcerias inéditas com o Cistermúsica e Ourearte. E acredita que a “casa”, como lhe chama, ficará bem entregue a Vítor Lourenço, líder da única lista candidata às eleições desta quinta-feira, 30 de janeiro.

Quando chegou há seis anos, o Orfeão atravessava uma fase conturbada, com salários em atraso. Como virou essa página?
Estes seis anos tiveram três períodos: os primeiros dois anos foram para trabalhar para o saneamento financeiro; os segundos dois foram de reorganização orgânica interna; e estes dois últimos anos foram para criar novas condições de expansão e reforçar o brilho da casa. Há seis anos realmente havia uma situação delicada, também por causa do que chamaria um modelo perverso de financiamento do Estado. Na altura o Estado tinha atrasos graves e obrigava a que fizéssemos despesa à cabeça, com reembolso com atraso. Essa foi uma das razões que levaram a complicações financeiras. Havia salários em atraso, dívidas à banca e a outros credores. Passados dois anos estava tudo completamente sanado. A dívida neste momento é zero e pagamos aos nossos fornecedores a uma semana. Temos uma respiração financeira muito saudável.

Como?
Mudou o modelo de financiamento do Estado. E a gestão interna foi muito rigorosa, com tudo avaliado. Podia ser menos simpático, mas tudo tinha de ser rigorosamente avaliado. Esse controlo permitiu sanar todas as dívidas.

Passa o testemunho de consciência tranquila.
Nesse aspeto sim. Também estamos muito bem organizados internamente, a nível das escolas e do corpo administrativo. Somos muito requisitados para prestações artísticas, o que muitas vezes é difícil, porque os alunos estão aqui em escola. Mas o facto de sermos muito chamados é um bom indicador. Outro é que entre o nosso público mais pequenino até ao Conservatório Sénior, ultrapassámos os 820 alunos, o que é notável.

A par da estabilidade financeira e do crescimento do número de alunos, imagino que também se orgulhe da abertura do Orfeão às questões sociais.
Exactamente. Quando vim para aqui achava que uma casa destas não podia ser fechada. Tem de ser aberta, ir para a rua, não só com o que sabe fazer [nas artes] mas sobretudo na intervenção social. Temos de ter uma atitude cívica e ela passa por dar oportunidades a quem, à partida, pode não ter essas facilidades de acesso a alguns aspetos culturais, como têm outros. Ora candidatando-nos a programas de financiamento de algumas entidades, ora por conta da casa, estabelecemos vários e muito interessantes programas, como é o das interculturalidades, com comunidades imigrantes residentes em Leiria, o trabalho com jovens institucionalizadas e com jovens de etnia cigana, com jovens autistas, intervenções que muito nos agradam. Além disso há a dedicação dos nossos alunos e dos pais. A quantidade de alunos premiados em concursos nacionais e internacionais é muito relevante, tal como o número de alunos que prosseguem para o ensino superior da música e da dança e, ainda, a percentagem de alunos que estão nos quadros de mérito das escolas: entre 25 a 30% são do ensino articulado da música. Tudo isto é muito gratificante.

Esses projetos sociais são um caminho para a obtenção de receitas? No deve e haver, como ficam essas contas?
Não. Na área da inclusão social não se acumulam receitas. Os programas de financiamento hoje em dia são muito controlados – e ainda bem! São tempos diferentes. Não queremos ter prejuízo, mas isto não é para ganhar dinheiro. Não é aí que vamos entesourar. Para além disso, temos programas não-financiados. Podem ser em parceria com a APPDA ou com a InPulsar, mas temos outros programas que suportamos. É uma obrigação da casa.

Deixa preparado algum trabalho para a próxima direção, na intervenção social?
Os programas vão continuar e alguns até vão crescer. Isto revela a sustentabilidade das coisas. Nas outras áreas, a nova direção dirá. A casa tem condições para ser cada vez mais marcante a nível regional. Há concorrência, forte e honesta. Não é na cidade nem no concelho de Leiria que há coisas menos simpáticas…

Onde há concorrência menos simpática?
Não é no concelho de Leiria… A nível artístico, o Orfeão até vai ter uma parceria com o Cistermúsica. É muito saudável: vamos fazer intercâmbio entre os festivais em 2020. Levamos lá um concerto nosso, do festival Música em Leiria, com Ferran Savall no Mosteiro de Alcobaça, e eles trazem um concerto cá. É a Rede Cultura a funcionar e por iniciativa dos próprios atores… Também temos uma parceria com a Ourearte: um concerto do Música em Leiria vai entrar na Semana Santa de Ourém, em articulação com a Câmara de Ourém. Depois, mais tarde, eles também cá virão.

São parcerias inéditas.
É um pequenino legado que posso deixar e que penso que será uma ideia muito bem acarinhada pela nova direção. Realmente o festival de Música em Leiria alargou territorialmente, o que foi muito bom. No ano passado já fomos aos dez municípios da CIM Leiria. Em 2020 mantemos isso e vamos ao Médio Tejo, com Ourém, e ao Oeste, com Alcobaça. Estamos no bom caminho.

Nos últimos anos o festival mudou conceptualmente, com uma mudança na programação. Teve reflexos?
Muito positivos. O festival estava um bocadinho aflito, apesar de contar sempre com grandes artistas, mas era preciso dar um toque, sem perder a qualidade. Mantivemos artistas de grande qualidade e, sem perder a matriz clássica, abrimos um bocadinho o leque para captar outros públicos e suscitar outros interesses. Os estilos musicais não têm de se cristalizar em si próprios. É preciso abrir: trouxemos cá a Gisela João com orquestra, tivemos o Ivan Lins e também a Ute Lemper. Não perdemos a qualidade nem a identidade do festival. E o público tem aumentado. A afluência tem tido um crescendo notável. Com outra coisa: cada vez damos mais concertos gratuitos ou a preços simbólicos. O que quer dizer que os nossos patrocinadores vão reconhecendo a qualidade e o prestígio, gostam de se associar e dão o substrato financeiro ao que é necessário.

Já há novidades para a próxima edição do Música em Leiria?
Vai ser o festival com mais concertos até hoje. Começa a 20 de março, na Batalha, com o António Chainho e o Rão Kyao e acaba em Leiria, a 25 de abril, com a Orquestra XXI.

Vítor Lourenço lidera a única lista que vai a eleições. É um bom sucessor?
A escolha é de quem votar. Mostrou-se disponível e interessado e é um homem com um lastro cultural relevante e penso que tem sensibilidade para estas coisas: tem um histórico de professor, de gestão cultural, terá uma excelente carteira de conhecimentos, o que é sempre importante. Penso que a casa ficará bem entregue.

Deixa alguma coisa por fazer?
Há sempre coisas por fazer. Em termos de escola estamos limitados aos plafonds da DGEstE [Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares], mas estes conservatórios têm de lutar pelo ensino secundário da música e da dança. Os alunos podem ter ensino articulado até ao 9º ano de escolaridade, mas depois estrangula. O Estado só dá plafonds para 2 ou 3 alunos. As direções destas casas têm de fazer essa luta pelo ensino secundário da música. Depois, a nível de espaço físico estamos acanhadíssimos. Esta casa não pode crescer mais, temos de começar a ver espaços complementares a este.

Que caminho deve seguir o Orfeão?
Não tenho de doutrinar quem vem, mas há que garantir a grande qualidade do ensino que é feito. Temos um grupo de professores muito dedicados, desde logo os diretores pedagógicos, com o apoio do pessoal administrativo, que é notável. Foram uma boa escora, muitas vezes. Tem de se dar condições para garantir a qualidade do ensino, mas havia que crescer, para ser cada vez mais um marco cultural relevante e abrir parcerias. Há pontes que vamos mantendo, mas as parcerias podem ser alargadas, às vezes com coisas mais inusitadas, o que é um desafio para todos. Às vezes é possível juntar o que, à partida, não é compatível. Como algumas experiências entre o que é oriundo da música clássica – a base da música – com o que está próximo da música alternativa. O que é preciso é que haja qualidade. Também gostava que se apostasse na apresentação de dança com música ao vivo. Temos já algumas experiências mas pode haver espetáculos mais vibrantes. E, de facto, um até já está previsto.

Já sabe o que fará a seguir? Vai continuar ligado à cultura?
Ao fim de seis anos uma pessoa começa a ficar até um bocado rabugenta [risos]. Há que arejar. A cultura nunca me passará ao lado, estarei sempre muito atento e participativo, desde que o possa fazer. Não me vou por em pantufas, de certeza absoluta.

Tem estado ligado à candidatura de Leiria a Capital Europeia da Cultura, no Conselho Estratégico. Gostava de ter um papel mais ativo nesse projeto?
Estou a ter: vou dando a minha opinião, vou sugerindo, vou ouvindo, vou aprendendo. A Capital Europeia da Cultura é um movimento interessante e importantíssimo. Pode ter situações um pouco mais difíceis de gerir ou ultrapassar mas criou-se um élan que não passa despercebido e há trabalho dos agentes culturais, uns de uma forma, outros de outra. A grande riqueza será a entrega do protagonismo das iniciativas ao movimento associativo devidamente capacitado, sem esquecer os atores culturais que trabalham ‘a solo’ nas artes plásticas, literatura e outras áreas. Se vamos ser Capital Europeia da Cultura… É um objetivo que não deve ser posto de parte, mas é já um movimento importantíssimo. Vamos ver se corre bem.

ML

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