A designer gráfica leiriense Juliana Duque, de 32 anos, reparte a sua vida entre Portugal e Itália. Neste momento, tem uma bolsa de investigação para se dedicar em exclusivo ao doutoramento, que está a fazer na Universidade de Lisboa.

Até iniciar a bolsa, trabalhava como freelancer sobretudo em colaboração com agências de design italianas (os seus clientes situavam-se na maioria na região do Veneto – Pádua e Veneza – e na região da Emilia-Romagna – Bolonha).

Não tendo necessidade de um local fixo para trabalhar, passa muito tempo em viagem, tendo como bases Lisboa e Bolonha (de onde é o seu namorado, com quem vive há vários anos – também ele freelancer). Têm casa nas duas cidades.

Devido a conferências que tem para apresentar, o programa de Juliana Duque para março e início de abril inclui a Espanha, Estados Unidos, o Canadá e o Reino Unido. Tem um bilhete para Itália a partir de Londres, programado para o dia 8 de abril. No entanto, ainda não decidiu se vai ou não.

Os seus sogros vivem numa das regiões afetadas, que informações lhe têm transmitido? As imagens que vemos de supermercados vazios correspondem a uma realidade generalizada?
Os meus sogros moram em Mantova (Mântua), na região da Lombardia. A Lombardia é, neste momento, uma das duas regiões consideradas como “zona rossa” (zona vermelha). A “zona rossa” cobre as duas regiões onde se deram os dois surtos da epidemia. Para situar, a Lombardia é a região onde se encontra a cidade de Milão e o Veneto é a região onde se encontra Veneza.
A região da Lombardia (assim como as outras regiões afetadas) instituiu medidas de prevenção para todas as cidades. Estas medidas são, todavia, diferentes daquelas aplicadas às cidades do surto, como o caso de Codogno (de onde provém o paciente um) e da zona de Lodi. Ali, as escolas (de todos os graus de ensino) estão fechadas, assim como alguns serviços de atendimento ao público. Além disso, estabelecimentos como cafés (em algumas zonas) têm de fechar a partir das 18 (esta última medida está a ser revogada em alguns sítios, após protesto dos donos deste tipo de estabelecimentos – o que se prevê é que a Itália entre em recessão).
Quanto aos supermercados, sim, é verdade. As pessoas estão a correr para os supermercados e a esvaziar as prateleiras, muito devido ao medo que se instaurou ali. Para combater esse medo, já começaram a passar “spots” na TV a explicar que não é necessário todo este alarmismo e que basta ter algum cuidado.
Aquilo que os meus sogros transmitem é o que também lemos nos jornais italianos (desde La Repubblica, Il Corriere della Sera, Open e Il Fatto Quotidiano aos jornais regionais) ou na agência de notícias Ansa – a evolução dos casos, a alteração de medidas e sobretudo a restrição à entrada de italianos em vários países.
A instrução geral para quem tiver sintomas não é de ir para o hospital, mas sim ligar para o número 1.500, o número criado para o Covid-19.

Podem circular, andar na rua normalmente, como foi alterada a rotina deles?
No caso dos meus sogros, eles têm saído menos de casa, mas sem grandes alterações – para já. Em Mantova ainda se pode circular normalmente. Neste momento, a queixa é dos estabelecimentos terem de fechar às 18 horas.

E sobre a pessoa que conhece em Vo’ Euganeo, que é uma das localidades afetadas?
O caso da pessoa de Vo’ Euganeo é diferente, uma vez que se trata de uma das localidades que está em quarentena. Nesse caso, as pessoas têm instruções de ficar em casa. Apenas estão abertas as atividades comerciais de primeira necessidade (como a farmácia e os supermercados). No entanto, existem números limitados de pessoas que podem ir de cada vez a esses estabelecimentos.
Não se pode entrar nem sair desta cidade, que está sujeita ao “blocco militare” – está cercada por militares e polícias, com postos de controlo. Por um destes postos podem entrar e sair os próprios elementos deste “blocco”, o pessoal médico, e os serviços essenciais. Tudo mediante autorização.

Em relação à sua casa de Bolonha, que também usa para fins turísticos, tem recebido cancelamentos?
A casa de Bolonha (no centro da cidade) é propriedade do meu namorado. Quando estamos em Bolonha é onde moramos. Quando não estamos, alugamos para fins de turismo através de uma agência. Neste momento, cancelaram algumas das reservas de março.

Pensava passar uma parte de abril na sua casa de Bolonha, quando pensa voltar a Itália?
Vamos acompanhar a evolução da situação no próximo mês. Não podemos correr o risco de ser colocados em quarentena à entrada de outros países, como já está a acontecer. Neste momento há vários países que estão a negar a entrada de italianos (sobretudo aqueles provenientes das regiões do Veneto e da Lombardia), ou estão a colocá-los em quarentena (assim como a cidadãos de países terceiros que tenham estado em Itália).
Por exemplo, ainda ontem (quarta-feira, 26) a Jamaica e as Ilhas Caimão recusaram a entrada do navio de cruzeiro italiano MSC Meraviglia nos seus portos, apesar de não haver nenhum caso a bordo. As ilhas Maurícias também negaram a entrada aos passageiros Lombardos e Venetos que chegaram com um voo da Alitalia (foram repatriados). A Bulgária, assim como outros países, suspendeu todas as ligações aéreas com a Itália. O website da Farnesina – agência do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Itália – publica em “real time” as informações sobre as restrições à entrada de cidadãos italianos por parte de países terceiros – estas restrições também se aplicam a nacionais de outros países que tenham estado em Itália nos últimos 14 dias.

Em termos gerais como acha que Itália está a encarar este problema?
Acho que a Itália respondeu com rapidez ao problema. Acho também que o número de casos disparou simplesmente porque começaram a testar toda a gente – agora testam só quem apresente sintomas. Se o mesmo fosse feito nos outros países, imagino que os casos começassem a disparar também. Afinal, os sintomas são muito semelhantes a pneumonias de outras origens ou mesmo gripe – esta última para quem desenvolve menos complicações.
Num mundo globalizado como o nosso, é impossível conter um vírus dentro de fronteiras geográficas. Se já no séc. XIV, com uma circulação muito mais contida, a peste bubónica acompanhou as rotas migratórias e de comércio, agora é muito mais difícil.
De qualquer forma, acho que o que vemos nas notícias é mais dramático do que a realidade. Fora das cidades cercadas, as pessoas têm feito a sua vida o mais normal possível.
Há uns anos, durante a crise da gripe suína, fui precisamente a Milão fazer um workshop na Nuova Accademia di Belle Arti di Milano, que se intitulava “Epidemic of Fear”. Hoje, este título é mais atual do que nunca.

Carlos Ferreira
Jornalista
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