Bruno Horta

Licenciado em engenharia informática pela Escola Superior de Tecnologia e Gestão, do Politécnico de Leiria, Bruno Horta é o fundador do Movimento Maker Portugal. Nos últimos dias desenvolveu o projeto e meteu Portugal a produzir viseiras de proteção para quem combate a pandemia da Covid-19 na linha da frente – profissionais de saúde, forças de segurança, proteção civil ou de lares. Qualquer pessoa pode descarregar o projeto na Internet e imprimir o equipamento em impressoras 3D. É tudo gratuito.

Quando começou o projeto?

Esta segunda-feira [dia 23] o projeto foi batizado com o nome de código “F**CK Covid-19”, mas será designado no futuro “Viseira do Movimento Maker Portugal”. Fui eu a começar [é o autor dos protótipos], mas na verdade juntaram-se outras mentes brilhantes que contribuíram para a sua melhoria e testes de conforto.

Portanto, a ideia original é sua?

Aqui não existe uma ideia original. Existe uma necessidade real que é produzir algo. Eu apenas quis apelar que juntos podemos fazer a diferença. Eu criei o Movimento Maker Portugal há dois anos e o espírito de entreajuda sempre foi enorme. Por isso, hoje estamos aqui, mais uma vez unidos, para ultrapassarmos este problema.No nosso grupo no Facebook está disponível o projeto, gratuitamente, como tudo o que fazemos. Para fazer as viseiras é preciso apenas uma folha grossa de acetato transparente, um elástico, um furador de papel e filamento de impressão para a impressora 3D.

É possível estimar quantas viseiras já foram produzidas e entregues?

Temos mais de 800 “makers” a produzir em média 10 a 15 por dia; mas é difícil de estimar porque nesta primeira fase, em que tudo é feito com recurso à impressão 3D, a nossa abordagem é descentralizada. Cada “maker” tenta fabricar e entregar a uma fonte próxima para conseguimos agir em diversas frentes muito mais rapidamente. Assim que avançarmos com uma produção em massa, com a ajuda que as empresas da zona centro têm oferecido, aí sim vamos ter a colaboração do hospital de Leiria [Santo André] e do Politécnico de Leiria para assegurar uma rápida entrega.

Mas estão mais pessoas envolvidas?

O grupo é composto por oito mil membros. Para ver quem está envolvido basta ir ao Facebook e em cinco minutos percebe-se que existe muita gente com bom coração a ajudar.

Está prevista a industrialização em empresas de moldes da Marinha Grande?

Pensamos conseguir começar no início/meio da próxima semana. As empresas têm ajudado e muitas delas pedem o anonimato, porque o que pretendem é mesmo ajudar de forma gratuita. Neste caso será possível fabricar milhares de viseiras. Serão muito rústicas, mas para fazer em grande quantidade. Nos moldes conseguimos fazer uma peça a cada 20 segundos e isso é fantástico. Para já, a impressão 3D dá a rapidez necessária, que neste caso pode salvar vidas.

Está a produzir para o Hospital de Santo André? Qual tem sido a resposta?

Para o hospital de Leiria [Santo André] já seguiram 30 da minha parte, mas temos outros “makers” de Leiria a entregar lá também.O feedback é sempre positivo, de quem não tem nada para usar e de repente aparece algo. Essa também foi a minha preocupação quando iniciei o projeto da viseira. Vemos imagens de equipamentos a que recorrem para se protegerem que os magoam todo o dia, por falta de ergonomia ou por serem uma solução rápida.A nossa solução não é a ideal, mas durante três dias e três noites os “makers” imprimiram, testaram e passam o meu modelo a enfermeiros, médicos, entre outros lutadores que então na linha da frente, para percebermos se estava confortável. E fiz todas as alterações possíveis para a tornar o mais confortável possível no pouco tempo que temos.

Neste projeto é tudo gratuito?

Sim, entregamos o “kit” completo. O que estamos a viver é um problema da humanidade. Por isso temos de lutar juntos, valores monetários não interessam para aqui. Temos empresas com muito bom coração que suportam os custos desta solução que serve agora para o momento. Estar a cobrar por ela seria desumano.

Há outra equipa a trabalhar, focada no fabrico de ventiladores?

A equipa “Maker Positivo”, liderada pelo Rangel Gil, está focada nessa ideia e penso que está a conseguir resultados positivos. No entanto, é algo complexo, que define o limiar da sobrevivência de uma pessoa, e que deve ser feito com muito cuidado.

Por que fundou o Movimento Maker Portugal? Em que consiste?

Criei o Movimento Maker Portugal porque em cada um de nós existe algo que nos distingue, em que somos muito bons. Se partilharmos esse conhecimento, a comunidade pode evoluir de uma forma mais sustentável, dando autonomia a quem pensava que não tinha e capacidade para desenvolver algo, com a ajuda de todos. É um movimento muito focado em tecnologias “open source” [código aberto, gratuito] em que quase tudo o que fazemos pode ser descarregado por alguém e melhorado. Tem como objetivo juntar pessoas com vontade de partilhar conhecimento através de um espírito de entreajuda.