O Governo decretou o estado de emergência, impondo, a partir deste domingo, o isolamento social como uma das medidas para tentar travar a Covid-19.
A convite do REGIÃO DE LEIRIA, os médicos da Unidade de Saúde Pública do Agrupamento dos Centros de Saúde Pinhal Litoral (ACES PL) respondem a um conjunto de perguntas para ajudar a explicar a doença.


O que define um caso “suspeito” de Covid-19?

Segundo as orientações atuais da DGS:
– Doente com infeção respiratória aguda (início súbito de febre ou tosse ou dificuldade respiratória), sem outra etiologia que explique o quadro + História de viagem ou residência em áreas com transmissão comunitária ativa, nos 14 dias antes do início de sintomas;
– Doente com infeção respiratória aguda + Contacto com caso confirmado ou provável de infeção por novo coronavírus (SARS-CoV-2) ou Covid-19, nos 14 dias antes do início dos sintomas;
– Doente com infeção respiratória aguda grave, requerendo hospitalização, sem outra etiologia.
De referir que a definição de “caso suspeito” atual pode alterar-se no futuro, consoante a evolução da epidemia.

E um caso confirmado?

Caso com confirmação laboratorial de SARS-CoV-2, independentemente dos sinais e sintomas.

Como é feito o teste no Hospital de Santo André? É feita uma análise ao sangue ou é por zaragatoa?

O teste é feito pela análise de muco retirado da via respiratória, habitualmente o nariz, através de uma zaragatoa.

Em quanto tempo é possível confirmar se um caso é positivo ou negativo?

Atualmente, as análises e contra-prova estão a ser realizadas a nível local (nos hospitais de referência) e, portanto, o processo será mais célere. Tanto a análise inicial como a contra-prova demoram, mais ou menos, quatro horas (a contar desde que a amostra dá entrada no laboratório). Portanto, no mínimo, este processo demorará oito horas (sendo que a este tempo se deverá acrescentar o tempo necessário à colheita e envio das amostras).

Os casos suspeitos da zona do ACES PL são todos encaminhados para o Centro Hospitalar de Leiria?

Sim, são todos encaminhados para o Centro Hospitalar de Leiria (CHL). A validação pode ser feita quer pela Linha de Apoio ao Médico (LAM) se for um médico a pedir a validação, ou pela linha SNS 24 se for o doente a pedir o auxílio, por exemplo a partir de casa. O CHL dispõe atualmente de uma área dedicada à Covid-19. Os  Centros de Saúde de Leiria, Batalha, Pombal, Porto de Mós e Batalha oferecem diariamente um apoio na área Covid-19, sendo os doentes triados à entrada permitindo uma circulação e observação em segurança dentro das instalações.

A taxa de letalidade do Covid-19 (número de mortes nos infetados) ronda os 4,3% em todo o mundo. Em Itália, porém, a taxa ronda os 8,3%. O que pode explicar essa disparidade?

O comportamento do vírus ainda não é totalmente conhecido, a capacidade de resposta dos países pode ser diferente (sendo que as particularidades locais podem ter muita influência). Os países estão em alturas diferentes da epidemia (Itália teve o primeiro caso muito antes que Portugal, por exemplo).

Quais são os grupos da população mais afetados?

Os idosos – população com idades superiores a 70 anos -, doentes com patologia cardiovascular, doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC, asma), diabéticos e imunocomprometidos têm maior risco. As grávidas também devem ter especial cuidado para não se infetarem.

O vírus afeta mais mulheres ou homens?

De momento, não existe evidência científica suficiente para afirmar maior suscetibilidade de mulheres ou homens, podendo eventuais diferenças observadas não serem diretamente relacionadas com o género.

Porque é que as crianças parecem ser menos afetadas?

A evidência parece mostrar que, de facto, nas crianças, a infeção é na generalidade menos agressiva. E não há registo de nenhum óbito em crianças com idade igual ou inferior a 10 anos. Mas, na verdade, não sabemos porquê. Neste momento, não há dados nem investigação suficientes para estabelecer teorias que não sejam especulativas.

Depois de infetadas e tratadas, as pessoas podem voltar a adoecer?

Mais uma vez ainda não sabemos, porque depende do comportamento do vírus a médio-longo prazo. Há infeções nas quais o organismo, depois do tratamento, fica imune. Noutras, o organismo fica parcialmente imune durante algum tempo, podendo ser reinfetado mais tarde (ou seja, a imunidade não dura para sempre). Noutras ainda, como no caso do herpes, o vírus fica latente, podendo reativar em alturas de maior stress para o organismo. Existem alguns relatos de casos de suposta reinfeção, mas não foi possível aferir ainda se se trata de uma reinfeção, reativação ou um falso negativo na análise de controlo. 

É possível haver quem seja imune à doença?

De momento, não existe evidência científica que suporte adequadamente uma resposta a esta pergunta.

Em Portugal, a gripe sazonal ocorre principalmente no inverno, entre dezembro e fevereiro. Existe alguma relação entre as condições climatéricas e a propagação do novo coronavírus?

Diretamente, não temos dados ainda para perceber o efeito das condições climatéricas no comportamento do vírus no ambiente. Contudo, nas alturas de temperaturas mais frias, as pessoas têm tendência a concentrar-se em locais fechados e pouco arejados. E isso sim, sabemos que tem grande influência na propagação do vírus. 

Quais são as principais diferenças entre a gripe e a Covid-19?

São ambas provocadas por um vírus de diferentes famílias, mas as pneumonias provocadas pelo SARS-CoV-2 tendem a ser mais graves. A transmissibilidade pessoa a pessoa da Covid-19 é superior à gripe.

A primavera é uma época propícia a alergias, com problemas respiratórios associados. Este fator pode contribuir para uma maior vulnerabilidade à doença ou inspirar maiores cuidados?

Não existe evidência que suporte o descrito.

(Perguntas & Respostas publicadas na edição semanal de 12 de março e atualizadas)