Teclistas, tocadores de concertina e bandas que animam os bailes e romarias de verão viram o seu principal rendimento desaparecer. Sem perspetivas de qualquer rendimento, há quem já pense em mudar de profissão.

Não são os grandes nomes que normalmente compõem os cartazes das grandes festas, mas são parte fundamental de uma máquina que ajuda a dar forma aos bailes e romarias que se realizam um pouco por todo o país durante o verão.

O verão é a altura do ano de maior faturação, sendo que a perspetiva agora é de rendimento quase zero até ao final do ano.

“Eu trabalho todo o ano, mas no inverno é só para manter e aparecer”, explicou à agência Lusa Graciano Ricardo, músico de 44 anos de Pombal, que há dez vive exclusivamente da música e que normalmente dá cerca de 80 concertos na zona Centro entre maio e setembro.

O último concerto que Graciano deu foi em Paris, em 14 de março, sendo que o segundo que ia dar na capital francesa, no dia seguinte, já não se realizou devido à pandemia da covid-19.

Mesmo a receber o apoio da Segurança Social para recibos verdes, Graciano Ricardo já começa a pensar em procurar trabalho noutra área.

“A partir de junho, tenho que pensar em trabalhar numa outra área, como a pintura na construção civil, onde cheguei a trabalhar quando era mais novo. É incomportável ficar em casa à espera que isto passe”, vincou.

Graciano Ricardo não tem ilusões em relação ao futuro e acha que mesmo retornando os concertos em outubro ou novembro, serão noutras condições e com ‘cachets’ mais baixos.

Para além disso, há também a discussão sobre o que é cultura e que cultura deve ou não ser apoiada.

“As pessoas esquecem-se que nós também somos cultura. O povo mais velho vai às nossas festas. Deviam ir às aldeias e ver como tiramos os idosos de 80 anos de casa e os pomos a dançar”, realçou.

Apesar da esperança que no verão de 2021 já tudo esteja relativamente normalizado, Graciano Ricardo tem dificuldade em olhar para o futuro.

Só na semana passada, dois meses após o último concerto que deu, é que teve coragem de tirar os teclados da caixa e ensaiar.

“As pessoas conheciam a minha alegria no palco e querem diretos, mas não tenho sentido motivação para isso. A frustração é tão grande para quem gosta disto, para quem deixa a pele no palco”, afirmou Graciano Ricardo.