As falhas e atrasos na distribuição de jornais são apenas uma face do problema. Porventura uma das mais notadas pelo leitor. Não é a única, contudo. Veja-se, por exemplo, quem depende da distribuição postal para trabalhar com eficácia. “Os sucessivos atrasos na distribuição têm grande impacto nos nossos associados ao nível da receção e envio de notificações”, aponta José Carlos Resende, Bastonário da Ordem dos Solicitadores e dos Agentes de Execução, entidade que garante ter endereçado bastas vezes reclamações aos CTT.

Na Delegação de Leiria da Ordem dos Advogados, também chegam queixas dos advogados “sobre o atraso na entrega diária de correspondência”, confirma Luís de Oliveira, responsável da delegação. “Estes atrasos terão maior incidência no correio simples e no recebimento dos avisos de receção (entrega), que chegam a demorar mais de uma semana sobre os envios”, explica.

Já José Carlos Resende, lembra que até a revista publicada pela Ordem, a Sollicitare, também não escapa aos problemas no serviço.

“Infelizmente é a constatação de todos, nos últimos anos tem havido uma degradação da qualidade do serviço”, aponta João Palmeiro, presidente da Associação Portuguesa de Imprensa (API). O tempo de entrega, que se tem dilatado, é o indicador que mais tem sofrido. E os dados desta associação deixam claro o efeito do problema. Num recente inquérito a associados, 81,3% admitiram que desde o início deste ano, perderam assinantes por causa de atrasos na distribuição postal. Paulo Ribeiro, presidente da Associação de Imprensa de Inspiração Cristã, ilustra o impacto de um atraso na distribuição de um jornal em papel. “É um sector que vive da entrega atempada de jornais e revistas e este é um produto de validade curta”, explica. Ou seja, quando um jornal chega atrasado, muitas vezes a informação que transmite perde atualidade ou relevância. A situação “é grave, uma vez que existe uma situação de quase monopólio por parte dos CTT e a imprensa, sobretudo a regional, tem o grosso das vendas nas assinaturas, com quebras significativas, atendendo à situação que se vive”.

João Palmeiro também tem registo da preocupação de vários associados, embora admita que o problema não é sentido de forma uniforme em todo o país. A pandemia agravou a questão, com o serviço de distribuição a sofrer quebras na qualidade, também consequência do crescimento da componente da entrega de encomendas. Um fenómeno que não será exclusivo de Portugal. “Estive em contacto com colegas dos EUA e aí o problema é semelhante”, aponta. O certo é que os consumidores de informação que chega pelo correio, fazem cada vez mais ouvir o seu descontentamento. O aumento da oferta digital ajuda a alavancar este sentimento de ansiedade com os atrasos.

Autarquias manifestam-se

Por cá, as autarquias já começaram a espelhar o descontentamento. A Assembleia Municipal da Nazaré, a 26 de junho, aprovou uma moção a solicitar à “administração dos CTT que encontre rapidamente forma de resolver os problemas que levam atualmente ao atraso na distribuição do correio no concelho”. Quatro dias depois, a Assembleia de Freguesia da Marinha Grande, aprovou um voto de repúdio pela forma como foi gerida a situação de contágio por Covid-19 de um carteiro na Marinha Grande, com as consequências que daí advieram para o serviço prestado e condições de trabalho.

Quem trabalha na empresa confirma a degradação do serviço. Dina Serrenho, dirigente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Correios e Telecomunicações, refere que “o serviço público a que a empresa está obrigada é mau e a populações estão a ser mal servidas”. Com a chegada da pandemia, verificou-se um aumento do fluxo de encomendas que deram fôlego económico à empresa, mas não houve qualquer reforço nos trabalhadores que prestam serviço. Chegaram as férias, e a situação agravou-se, explica. “Lamentamos que os padrões de qualidade não estejam a ser cumpridos”, afirma, sublinhando que os funcionários se têm “mantido na linha da frente”, mas existem limites para o que é possível fazer. Entretanto, a empresa “que não queria contratar ninguém, não teve outro remédio que não fosse contratar, porque os trabalhadores se uniram” nesse sentido, afirma a sindicalista.

Empresa admite problema e promete reforços

“Os CTT admitem a existência de constrangimentos na distribuição devido a alguns fatores”, reconhece fonte da empresa. Variações do tráfego dos últimos meses e o absentismo, ligados ao contexto de pandemia, e “a existência de um caso positivo que levou ao isolamento profilático de colaboradores no próprio Centro de Distribuição Postal”, são razões apontadas. A empresa anuncia que “se procedeu ao trabalho suplementar ao sábado e ao reforço da equipa com seis colaboradores contratados e que, em breve, serão contratados mais dois trabalhadores”, para substituir trabalhadores ausentes, visando “garantir a melhoria dos serviços”, incluindo “a distribuição de jornais e revistas”. No caso do isolamento profilático na equipa da Marinha Grande, “para garantir a normal distribuição de correio e encomendas, os CTT deslocaram carteiros de outros centros de distribuição e contrataram trabalhadores temporários”.