Lara Seixo Rodrigues: “o nosso objetivo através desta festa de artes é despertar o orgulho e o sentimento de pertença num determinado território” Foto: Rute Ferraz/Fazunchar

Pintura mural, concertos, workshops, visitas, conversas, filmes, residências artísticas e um piquenique comunitário a fechar, agitam Figueiró dos Vinhos a partir deste sábado, dia 15, até 23 de agosto. Lara Seixo Rodrigues, da plataforma artística Mistaker Maker, é responsável pelo festival Fazunchar – que significa “fazer”, em laínte – e falou ao REGIÃO DE LEIRIA sobre os desafios desta segunda edição.

O Fazunchar começa este sábado com a exposição de Nuno Sarmento e convida nove artistas a pintar murais em Figueiró dos Vinhos. A leiriense Surma desenvolverá uma residência artística para o festival. Toda a programação disponível aqui.

Qual o principal desafio para esta segunda edição de Fazunchar?
O grande desafio é que a edição de sucesso que tivemos no ano passado se repita e o festival tenha a mesma aceitação. A cada nova edição, seja em que projeto for, é isto: queremos que o nível se mantenha e tenha aceitação pela comunidade. Que seja possível fazer acontecer outra vez, é esse o propósito do Fazunchar. 

A Mistaker Maker tem experiências em vários festivais. Como na música com o segundo disco, também nos festivais há a angústia da segunda edição? 
Inicialmente eu achava que não, mas depois percebi que é [angústia] da segunda, da terceira, da quarta… No primeiro ano temos aquela ilusão de que o primeiro já se realizou e depois é sempre igual. Acho que cada um é sempre mais difícil, porque queremos constantemente manter e elevar o nível, proporcionar novas experiências para que não se caia na rotina. Temos de estar constantemente à procura de algo novo. Chega a ser angustiante sim.

Há limites para um festival como o Fazunchar?
Não há limites. Os limites são sempre impostos por nós e pela maneira como observamos e sentimos. O território de Figueiró dos Vinhos ajuda: tem tanto elemento identitário cultural em que se pode pegar… Estamos a fazer a segunda edição e temos já ideias para a terceira, que ainda não foi possível explorar. É um território muito rico, a nível patrimonial, histórico, artístico, e depois temos a grande inspiração: o movimento naturalista, que se fundou ali. Temos mesmo muito para continuar trabalhar. 

Quais as novidades desta edição?
A principal surpresa é a resposta a um pedido, que é o facto de sairmos da vila e irmos para as três freguesias. Foi um feedback enorme que tivemos no ano passado, em género já quase de reclamação. Decidimos ir até às três freguesias com um artista. Não só vamos ter um artista a trabalhar em permanência, como no último fim de semana temos a Rota dos Fregueses, onde vamos em “romaria” visitar as freguesias, para cada um dos artistas explicar porque fez aquilo, o que o inspirou, a forma de trabalho… Quando falamos de arte urbana, falamos de uma performance que se alarga no tempo e que envolve a comunidade. Quem estiver a trabalhar lá, vai ser acompanhado por quem faz parte da comunidade, que passa a fazer parte dessa performance, porque as pessoas vão-se apercebendo, falam com o artista, dão ideias sobre as histórias que estão a ser criadas…

Que efeito tem esse processo?
Temos sempre grande expectativa. Mas é um crescendo ao longo da semana. Tudo tem a ver com o envolvimento da comunidade. Todas as atividades são pensadas para fora, não para dentro, porque a transformação faz parte da comunidade e é essencial envolver todos os públicos. Mas gostamos de ser surpreendidos. Ficamos muito felizes quando vemos pessoas que entenderam o projeto e as nossas pretensões. 

Qual o critério de seleção dos artistas?
Apesar desta pandemia, não quisemos deixar de convidar artistas estrangeiros. Figueiró tem particularidade de ser palco de criação não só para portugueses mas também para estrangeiros, por isso vamos trazer novamente três artistas de fora. Os critérios são semelhantes aos do ano passado: se a nossa fonte de inspiração são os naturalistas, temos de ter isso sempre presente. Mas o tema pode ser interpretado de muitas maneiras ou seja, o naturalismo de 1930 é diferente do de 2021. Por exemplo, a Helen Burr, do Reino Unido, desafiou-nos a fazer um projeto especial, em que tira fotografias aos moradores de costas e depois pinta-os em pequena escala pelas ruas. Também temos em conta qual é o tema, qual a estética do artista e qual a sua sensibilidade em trabalhar neste tipo de territórios de baixa densidade.

Que reação provocou a primeira edição do Fazunchar em Figueiró dos Vinhos?
Quando terminámos, percebeu-se a aceitação pelas pessoas nas visitas guiadas. Tinham entendido que o nosso objetivo através desta festa de artes é despertar o orgulho e o sentimento de pertença num determinado território. Nos territórios mais próximos o feedback foi muito positivo e a nível nacional também foi muito bom. Muita gente não conhece Figueiró e percebeu que havia ali algo diferente e especial. A nível internacional também tivemos reações, mas já mais especificamente no meio artístico. Muita gente olhou para o Fazunchar como exemplo de um projeto que utiliza o espaço público – que é o palco mais democrático – para criação de novos diálogos, novas sensações e novos conhecimentos. O feedback não podia ter sido melhor.

A pandemia condicionou o programa?
Não houve grandes mudanças. As atividades abertas ao público têm agora de ser desenhadas e muito bem programadas e os workshops têm de ter menos pessoas, com todas normas. Há também muitas atividades transmitidas online para quem não se sente seguro a sair de casa. Fazemos sempre questão de trabalhar com o público mais idoso e isso este ano não podemos fazer. Mas não o quisemos deixar de fazer e por isso temos uma edição especial da Sebenta da Quarentena, com as várias instituições de cuidado ao idoso que existem no concelho.

Conseguiram manter o piquenique comunitário…
Acreditamos que é possível fazer tudo, obviamente com os devidos cuidados, como os concertos ou as visitas guiadas. Dá-nos mais trabalho a pensar como tudo poderá ser feito, mas quisemos manter tudo.

Depois do mediatismo da primeira edição, esperam muitos visitantes em Figueiró?
Há muita gente que, à partida, não teria na sua agenda ir ao Fazunchar mas, como acaba num fim de semana com um conjunto de atividades, muita gente nos tem contactado para ir. Sabemos que há pessoas que já fizeram reservas para lá estar o fim de semana todo.