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Cultura

A cultura volta a fechar. Mas qual é o preço?

Sem palcos para atuar, salas para expor ou autorização para ensinar, os agentes culturais voltam a “fazer das tripas coração” para sobreviver. Há compreensão para as medidas ditadas pela situação de emergência. Mas há quem acredite que, no meio disto tuo, está a chegar a oportunidade para um ponto de viragem.

O Teatro no Globo, criado pelo Leirena durante a pandemia, é a metáfora perfeita para um setor cultural em agonia Foto: Joaquim Dâmaso

Teatros, cinemas, auditórios, museus, monumentos, bibliotecas, galerias de arte, tudo fechado. O aterrador número de mortos e contaminados com Covid-19 obriga a novo confinamento e a cultura asfixia com as medidas de contenção decretadas pelo Governo. Parar é inevitável mas, dez meses de pandemia depois, a cultura aguentará outra suspensão?

“Isto é só um agravamento do que já vem de trás”, diz o artista plástico Tiago Baptista, que assume “sentimentos ambíguos” perante a situação.

“Se por um lado percebo que ir a exposição ou visitar um museu é uma coisa importante, também percebo que isso envolve mais pessoas a movimentarem-se de um lado para o outro e a ideia é que não nos tenhamos de movimentar, não só artistas, como técnicos e funcionários”.

A solução poderia ser “dar possiblidade às pessoas para estar em casa durante uns tempos”. Clara Leão até vai mais longe. “Sou apologista que fechasse tudo durante 15 dias. Esta situação é assustadora e absolutamente incontrolável. jNum país do nosso tamanho é catastrófico”.

Para a coreógrafa e professora de dança era encerrar tudo e “recomeçar com alguma calma”: “O problema é que já vivemos todos entre a espada e a parede. A cultura não é uma empresa que tenha um fundo de maneio que se possa usar quando as coisas ficam piores”.

Quem também pára são as 11 filarmónicas do concelho de Leiria. “É unânime, temos de fazer um esforço para ajudar o pessoal da saúde”, frisa o presidente da Associação de Filarmónicas do Concelho de Leiria (AFCL).

Ao todo envolvem cerca de meio milhar de músicos e vão ter, novamente, de se reinventar. “Vamos debater na quinta-feira [21 de janeiro] como fazer se se prolongar muito tempo”, conta Carlos Lopes. Sem as festas religiosas que garantiam o sustento financeiro, as filarmónicas anteveem o pior.

“O único apoio que temos são os protocolos com a Câmara de Leiria. Mas ainda ninguém atirou a ‘toalha’ ao chão. Enquanto um soprar, isto vai para a frente”, diz o presidente da AFCL, lembrando a resistência das filarmónicas, oito das quais já centenárias.

“Há a memória de termos passado por pandemias, guerras, vagas de emigração… Pode durar anos, mas passa”. Contudo, há “grande saudade” de atuar com público: “Uma banda sozinha fazer um concerto parece coisa do século passado!”.

“O mundo acordou”

Sem salas para atuar e impedido de dar aulas de teatro, o Leirena aposta no Teatro no Globo e Estado de Excepção para trabalhar, porque “são projetos em que a transmissão do vírus não existe”. “Se os restaurantes vivem da comida que vendem, as lojas da roupa que vendem, nós dependemos do trabalho artístico que fazemos”, lembra Frédéric da Cruz Pires.

A companhia quer manter os projetos lançados em pandemia e espera resposta da PSP para levar o Globo às escolas e o Estado de Excepção às portas dos lares. E está a programar para depois de maio. “Não podemos ficar quietos nem parados. É impensável parar”.

O Leirena abdicou das aulas e ensaios online – “não é benéfico”, diz Frédéric -, opção alinhada com o pensamento do responsável da Omnichord Records.

Hugo Ferreira defende que os programas por streaming do início da pandemia “dificilmente se repetirão”: “As pessoas estão saturadas”. O encerramento das salas de espetáculos e a manutenção da frequência em espaços religiosos é um “paradoxo”, critica o editor, que pede oportunidades para os artistas.

“A grande maioria das pessoas do setor não quer viver de apoios, quer poder trabalhar. Se não é possível trabalhar nas salas, então que se prepare algo para pôr em execução, que se recebam projetos e candidaturas”, disse, citado pela agência Lusa.

Para Hugo Ferreira, “a nossa fé é a cultura” e, por isso, esta devia ser entendida como “um ponto essencial”. “As consequências da queda de um setor como a cultura são inimagináveis. Perde-se a capacidade de pensar o mundo e de voltar a imaginar um novo futuro”, frisa.

Apesar da “angústia” de ter de fazer outra vez “das tripas coração” e um “esforço titânico” para “manter a moral”, Clara Leão acredita que, no meio disto tudo, “o mundo acordou para a importância que a cultura tem no auxílio à vida”.

Tiago Baptista vai mais além e antecipa “um momento importante” para “fazer mudanças significativas na sociedade portuguesa”.
Esta crise apenas “tirou o véu” à situação de quem sempre viveu no limite.

“Percebeu-se a porcaria que é viver assim”, atira, considerando “obsceno” haver quem enriqueça com a pandemia. “É um problema sistémico, que se alarga à sociedade toda”.

“Vão ser meses ou anos de muita luta. É a oportunidade para fazer mudanças, mas temos de fazer pressão para elas acontecerem. Isso só acontece se avançarmos” porque, lembra, “nós também somos política”.

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