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Ministra questiona cientistas: Por que é que a região atrai tantos fenómenos extremos?

Marinha Grande, Leiria e a região têm estado no centro de alguns dos fenómenos climáticos mais extremos que atingiram o país.

Governante visitou a Praia da Vieira, dia 13.Encontrou uma estância balnear em obras, mas confia que intervenções urgentes vão permitir regresso de veraneantes em breve

Gong, fogos, Leslie e Kristin: quatro fenómenos extremos numa só região numa dúzia de anos. Porquê? “Eu já perguntei a alguns cientistas se têm explicação: por que é que esta região, nos últimos anos, tem sido a mais exposta às tempestades?”. É a própria ministra do Ambiente e Energia quem admite ao REGIÃO DE LEIRIA a sua preocupação com a frequência de fenómenos extremos que têm atingido o Centro e, em particular, a região de Leiria.

A região tem estado no centro de alguns dos fenómenos climáticos mais extremos que atingiram o país, pela sua violência, pelos danos materiais e pelas vítimas humanas. A ciclogénese explosiva de 2013 marcou o início de uma sequência que incluiu os fogos de 2017 (em junho e outubro, consumindo extensas áreas e provocando dezenas de vítimas).

Seguiram-se estragos consideráveis com o Leslie, em 2018, e, mais recentemente, a tempestade Kristin, de 28 de janeiro, cujas feridas estão longe de ter sarado. Estará a natureza a deixar-nos um sinal que teimamos em ignorar?

“Se todo o país precisa de ser resiliente, esta região precisa de ser resiliente ao quadrado, ou exponencialmente resiliente”, alerta Maria da Graça Carvalho. O alerta não é novo. No início da década, um grupo de jovens da região avançou com uma queixa no Tribunal Europeu, na sequência dos incêndios devastadores que, em 2017, mataram 109 pessoas e feriram outras 325, acusando dezenas de países de inação climática. Vários anos depois, a natureza continua a desafiar-nos e as respostas tardam. “Enquanto não percebemos, há uma coisa de que temos a certeza: precisamos de reforçar a resiliência”, sublinha a ministra.

As dúvidas da ministra podem ter algumas respostas. Talvez faltem certezas, mas há indícios que ajudam a explicar a particular incidência destes fenómenos na região. “A região Centro tem uma configuração geográfica, no âmbito da sua exposição ao oceano Atlântico e do seu território, essencialmente baixo e plano, que permite que os fenómenos extremos de vento e precipitação tenham uma progressão sobre terra que não é possível noutros locais, devido, essencialmente, à topografia”, explica Gil Lemos, investigador no Instituto Dom Luiz, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, na área das alterações climáticas e um dos responsáveis pelo fórum de meteorologia MeteoPT.

Na prática, “se, sobre o oceano, a atmosfera pode organizar escoamentos muito energéticos em grande escala, ao chegar a terra, o vento tende a perder energia por atrito, e a precipitação tende a ficar retida nas zonas montanhosas. A região Centro, baixa e plana, não oferece obstáculos que permitam o enfraquecimento destes sistemas na sua progressão para o interior”.

Esta não será uma explicação isolada: a esta equação soma-se a “grande densidade populacional, as grandes áreas florestais (como o Pinhal de Leiria) e os seus núcleos industriais e económicos”. Quer isto dizer que “o mesmo evento extremo resultará em maiores danos nesta região do que noutras mais despovoadas ou sem tantos ativos económicos”.

No olho do furacão

No final da semana passada, a titular da pasta do Ambiente teve oportunidade de constatar, no local, um dos pontos de maior impacto da tempestade Kristin. Foi no dia 13. Na sua passagem pela praia, Maria da Graça Carvalho deixou a convicção de que, nos próximos meses, a praia deverá estar apta a receber veraneantes, uma vez que vão ser realizadas intervenções prioritárias e urgentes até maio, para que a época balnear se possa iniciar como previsto.

Na sua visita, encontrou Sofia Cabral, que colava a ementa do dia do restaurante situado a poucas dezenas de metros do areal. A ministra não ficou para almoçar no restaurante Cabral, um dos poucos que permanece aberto, apesar de “alguns estragos no telhado e [de] a esplanada [ter voado]”. Resultado: “ao domingo, a afluência é semelhante à de um dia de verão”, explica Sofia Cabral. Não falta quem venha visitar a praia fustigada e fique para almoçar, ansiando por uma estância balnear renovada.

Uma prova de resiliência

Enquanto isso não acontece, a ministra aposta em reforçar a capacidade para enfrentar esta nova realidade — ou, como se tem ouvido com insistência, ser resiliente. Mas em que é que isso se traduz? “Vai ter de se traduzir nos postes da rede elétrica que não suportaram aquelas velocidades do vento. Vão ter de ser reforçados. Provavelmente, aqui vão ter de ser muito mais reforçados do que noutros sítios”.

“Tudo o que fizermos do ponto de vista da adaptação às alterações climáticas, dando maior resistência e reforço às infraestruturas, aqui terá de ser mais exigente”, confirma Maria da Graça Carvalho, que aponta igualmente a necessidade de melhorar a prevenção das cheias: “temos de ter maior cuidado e resistência às tempestades e às cheias”.

Para Gil Lemos, a realidade tem demonstrado a necessidade de uma adaptação mais musculada. Portugal, explica, é já identificado como um “hotspot” das alterações climáticas, onde se prevê o agravamento de fenómenos extremos — de secas e ondas de calor a episódios de precipitação e vento mais intensos.

Numa zona de transição entre influências atlânticas e do Norte de África, “mais calor na atmosfera implica” não só secas mais prolongadas, mas também “maior capacidade de retenção de vapor de água (mais precipitação)” e mais energia disponível para fenómenos intensos.

Neste contexto, o ordenamento do território não pode continuar assente no passado. Deve integrar o conceito de “risco climático”, que combina perigosidade, exposição e vulnerabilidade, orientando decisões sobre uso do solo, localização de infraestruturas e proteção de populações.

Isso implica, por exemplo, repensar áreas de maior risco, podendo justificar “limitação de novas ocupações” ou mesmo a relocalização de infraestruturas e populações em zonas vulneráveis, como leitos de cheia.

Gil Lemos sublinha ainda que a adaptação é não só necessária, mas também uma oportunidade: além de proteger pessoas e bens, pode reduzir custos económicos significativos — lembrando que os impactos recentes de tempestades atingiram cerca de 6 mil milhões de euros, valor que poderia ter sido atenuado com medidas já implementadas.

Maria da Graça Carvalho não vai tão longe. Questionada sobre a eventualidade de se ter de equacionar, no futuro, a retirada planeada de locais mais fustigados por fenómenos meteorológicos extremos, explica que existem pessoas “retiradas em determinadas circunstâncias”, dando o exemplo recente das cheias em Coimbra.

O “respeito pela forma de viver das pessoas, o estar habituado a viver numa determinada região, é também muito importante”, pelo que essa dimensão social deve ser “respeitada o máximo possível”. Para já, na Praia da Vieira, a destruição marca a paisagem.

Mau tempo: da coincidência às alterações climáticas

A sucessão de fenómenos extremos na região Centro — entre tempestades intensas e incêndios severos — não pode ser explicada de forma simplista. A resposta está algures entre a variabilidade natural do clima e o impacto crescente das alterações climáticas, explica Gil Lemos.

“É importante separar os eventos extremos associados a tempestades daqueles associados a incêndios”. No caso dos incêndios, lembra este especialista, há fatores adicionais — como a existência de biomassa e uma ignição — que impedem uma relação direta com outros fenómenos meteorológicos.

Já no que toca às tempestades, a análise exige maior nuance. “A sucessão de episódios extremos na região Centro não prova, por si só, uma causalidade de alteração climática, mas também não deve ser desvalorizada como mera coincidência”, afirma. Segundo o especialista, o clima resulta da interação entre dois planos: a variabilidade natural — que sempre existiu — e as alterações climáticas induzidas pela ação humana.

Historicamente, a região conheceu períodos de maior concentração de eventos extremos, o que pode explicar fases mais “ativas”. No entanto, há um elemento novo: a intensidade sem precedentes de alguns fenómenos. “Temos assistido a situações que quebram recordes”, sublinha, apontando para extremos de precipitação, calor ou vento que excedem o padrão histórico.

A conclusão é clara, ainda que equilibrada: “parece sensato considerar” que os eventos recentes resultam de uma conjugação entre “azar”, associado à variabilidade natural, e uma realidade já incontornável, que se traduz num clima em mudança, que amplifica a intensidade dos extremos.

A que velocidade soprou o vento? Nem as estações meteorológicas estavam preparadas

Ventos fortes destruíram Pinhal de Leiria Foto: Joaquim Dâmaso

Até os instrumentos normalmente utilizados para medir estes fenómenos se revelaram impreparados para a sua face mais extrema. Na madrugada de 28 de janeiro, os registos oficiais apontam para ventos a rondar os 180 km/h, mas há relatos de valores acima dos 200 km/h. Afinal, a que velocidade soprou o vento?

Não muito longe da Praia da Vieira, em Monte Real, foi registada uma rajada de 177,8 km/h. É provável que não tenha sido a mais intensa dessa noite, mas foi a que a estação meteorológica da Base Aérea n.º 5 conseguiu suportar antes de ser destruída pela ação do vento — e a que foi considerada oficialmente pelo IPMA.

“Temos de nos adaptar a esta nova realidade”, reconhece fonte da Força Aérea Portuguesa, admitindo a necessidade de uma nova estação meteorológica mais resistente. Após a tempestade Kristin, surgiram relatos de ventos superiores a 200 km/h — 208,8 km/h em Soure — e até a indicação de 238 km/h na Costa de Lavos. No caso do IPMA – entidade que questionámos com insistência sobre esta matéria sem obter resposta -, várias estações da região deixaram de funcionar durante o evento.

Em Leiria, foi atribuído um valor de 156,2 km/h e, em Ansião, 172,4 km/h. Uma rede de observação meteorológica deve ser “robusta, redundante e densificada”, mas episódios extremos podem comprometer a recolha de dados, sobretudo porque “as comunicações [ficam] fortemente afectadas”, num problema que ultrapassa as próprias estações, explica o investigador Gil Lemos.

Ainda assim, os instrumentos são, em geral, resilientes. A tempestade Kristin registou valores “de uma ordem nunca antes medida”, revelando a necessidade de os preparar para novos extremos. Tecnologias como anemómetros sónicos poderão melhorar a medição, embora outras ferramentas, como radares, já permitam captar estes fenómenos — tendo sido detetados valores na ordem dos 60 m/s. Quanto à credibilidade, “valores desta natureza só devem ser considerados oficiais depois de validados”, segundo normas da Organização Meteorológica Mundial.

Fatores como localização ou exposição podem explicar discrepâncias, o que leva a que alguns registos divulgados sejam apenas indicativos. Gil Lemos considera “plausível” que tenham ocorrido rajadas superiores às oficialmente medidas, possivelmente acima dos 200 km/h, mas apenas medições validadas podem ser consideradas registos oficiais.

A produção deste artigo é apoiada por uma bolsa do projeto Climate Frontline, liderado pelo EJC, em parceria com a REVOLVE



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