O projeto “Bebés compositores”, que recorre a inteligência artificial (IA) e realidade aumentada, vai ser testado, entre esta sexta-feira e domingo, em Leiria.
O projeto decorre no âmbito da iniciativa europeia ‘Amplify’, que visa promover a transformação digital das indústrias culturais e criativas, e teve início em novembro de 2024.
Segundo uma nota de imprensa da Cooperativa Paulo Lameiro, o projeto tem “como um dos objetivos desenvolver e testar tecnologia que permita a um bebé entre os zero e os 36 meses participar como autor numa obra musical”, recorrendo a novas tecnologias nas áreas da inteligência artificial e da realidade aumentada.
Integram o consórcio 14 parceiros de oito países europeus, incluindo a Cooperativa Paulo Lameiro, que tem desenvolvido o projeto-piloto “Bebés compositores”.
A mesma nota adianta que, após 18 meses de investigação, a companhia Musicalmente, que produz os Concertos para Bebés e integra a cooperativa, sediada em Leiria, vai testar agora “todo o sistema com início nos sensores colocados nos bebés até à performance realizada pelos artistas, lendo notação em óculos de realidade virtual, em laboratórios e concertos.
Questionado pela agência Lusa se os bebés podem ser compositores, Paulo Lameiro, investigador e especialista em práticas artísticas para a primeira infância, declarou que essa foi uma pergunta colocada logo no início.
“Quando lançámos este desafio, nós próprios nos questionávamos sobre a razoabilidade e a sensatez de investir num projeto convidando os bebés de poucos meses a serem compositores”, afirmou Paulo Lameiro.
De acordo com Paulo Lameiro, “passados os primeiros meses de investigação e resultados”, confirma-se, “na semana em que vão ser estreados os primeiros protótipos”, que “os bebés podem ser compositores” e “participar ativamente na criação de uma obra musical”, referindo-se às reações à música que vão ouvir, a diferentes instrumentos e compositores ou ao silêncio.
“Tal como num concerto de bebés, nós começámos por pensar só nos bebés e depois percebemos que os pais que levam os bebés afetam, implicam na forma como o bebé sente a música. Achámos que também seria razoável que a partitura que os bebés vão fazer não seja uma partitura exclusivamente sua, mas vai ter também a participação dos pais”, afirmou.
Por isso, “os sensores que vão traduzir os sinais, os processos criativos do bebé para a partitura, vão juntar-se a sinais que câmaras muito especializadas vão captar das sensações e das emoções dos pais”.
Contudo, se se pretendesse que “fosse só do bebé, o bebé poderia ser compositor em exclusivo”, sendo que “os pais vão poder ficar com um registo, um bocadinho da partitura, que é uma partitura viva, é um filme, é uma partitura ‘live’ no tempo que o bebé vai criar”.
“Os bebés podem criar, apesar de poucos meses, e contribuir para que a música ouvida no concerto tenha a sua impressão digital”, resumiu Paulo Lameiro.
Os laboratórios, na sexta-feira e no sábado, decorrem na sede dos Concertos para Bebés, nos Pousos, e os concertos, no domingo, são no Teatro Miguel Franco.
“Toda a equipa artística da Musicalmente estará envolvida nestes laboratórios, contando com uma alargada comunidade de famílias de ‘Bebés Compositores’ que, desde janeiro de 2026, se têm vindo a encontrar para testar e avaliar cada uma das componentes de todo o projeto”, referiu a nota de imprensa.
Participam ainda seis investigadores, da Technological University of the Shannon, na Irlanda, e do Centrum Wiskunde & Informatica – National Research Institute for Mathematics and Computer Science, dos Países Baixos, nas áreas da inteligência artificial, realidade virtual e aumentada, impacto tecnológico em humanos, sensores e realidade virtual, e avaliação.
Nos 20 laboratórios, dos quais 14 individuais, vão estar perto de 50 bebés.
No domingo, nos concertos, quando o sistema vai ser estreado, “nem todos os bebés presentes vão ter sensores”, mas entre seis e oito “vão estar a contribuir para esse momento de criação musical”.
No final do próximo ano, está prevista a apresentação do resultado deste trabalho num Concerto para Bebés em Leiria.
O concerto do próximo domingo será ainda mais especial, uma vez que será também a estreia absoluta do espectáculo escrito pelo compositor Lino Guerreiro. Em quase três décadas de Concertos para Bebés, é a terceira vez que a Musicalmente “encomenda a um compositor a criação de uma obra integral pensada específica e exclusivamente” para um concerto.
Depois de Paulo Perfeito e Daniel Davis, Lino Guerreiro foi o compositor escolhido para o desafio de escrever uma obra dedicada à primeira infância.
A obra intitula-se “Antes das Palavras”, tem a forma de suíte e está organizada num percurso de 10 andamentos. “Cada um dos andamentos procura descrever a forma como os bebés se confrontam com o mundo e tudo o que os rodeia”, refere a Musicalmente em comunicado. É, nas palavras do compositor, “uma travessia afectiva entre descoberta, vulnerabilidade e abertura”.
Os bilhetes podem ser adquiridos na bilheteira do Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria.