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Em Peniche recolhem-se testemunhos de coragem contra a ditadura na primeira pessoa

Antigos presos políticos na cadeia de Peniche estão a ser entrevistados pela equipa do Museu Nacional da Resistência e Liberdade. São testemunhos que podem “ajudar a evitar a repetição da História”.

Uma mão aponta para um nome numa placa de metal com uma lista de nomes gravados. São visíveis vários nomes começados por Francisco.
No Memorial aos Presos Políticos estão gravados 2.510 nomes. “Mas é mais que certo que muitos outros ainda vão surgir, fruto da investigação histórica que ainda prossegue”, refere Rosalina Carmona Foto: MNRL

Provocações, agressões, castigos, isolamento, humilhações. Foram muitos anos de desumanidade, de 1934 até 27 de abril de 1974, aqueles que Peniche significou para milhares de pessoas – presos políticos em nome da ditadura. A cadeia instalada na Fortaleza era “local de sofrimento” e de “tremenda dureza”, recorda Álvaro Ribeiro Monteiro, um dos antigos reclusos entrevistados pela equipa do Museu Nacional da Resistência e Liberdade (MNRL).

Nas últimas semanas, no Facebook, o MNRL tem divulgado entrevistas com quem esteve preso nos espaços que agora formam o museu, que não é feito só de celas, pátios e grades: há também as memórias de quem viveu ali, vítima da ditadura. São esses testemunhos de resistência e coragem que estão a ser fixados.

O projeto “Histórias de Pessoas, Histórias de Resistência” arrancou em 2019 enquadrado na missão do MNRL, de preservar a memória histórica da Fortaleza, “em especial as lutas e resistência do povo português à ditadura fascista e na conquista da liberdade e democracia”, explica Rosalina Carmona, técnica superior da Direção Geral do Património Cultural e do MNRL.

Como muitos dos presos já não estão vivos, “impunha-se, com a maior brevidade, recolher aqueles testemunhos únicos”, registando-os para memória futura.

Uma mulher e um homem estão frente a frente, separados por uma divisória de vidro. A mulher aponta para o homem enquanto conversam num espaço interior.
José Tavares Marcelino, preso político, com a mulher no famoso Parlatório da cadeia de Peniche Foto: MNRL

“Quisemos ouvir contar na primeira pessoa como foi o desespero de estar preso, quais os motivos da prisão, quanto tempo esteve detido, como isso afetou a vida pessoal de cada um e dos familiares”.

Durante anos, estes homens não puderam abraçar filhos, esposas, pais e amigos, viram a correspondência censurada, passaram por prisões como Caxias ou a delegação da PIDE no Porto e foram torturados. Mas também se organizavam no cárcere, comunicavam, passavam mensagens e imprensa clandestina, encontravam forma de passar o tempo. “Este era o universo que queríamos conhecer e divulgar”.

Desde o final de março foram partilhadas quatro entrevistas filmadas e mais se seguirão. Por ora, devido à pandemia, o MNRL interrompeu a recolha de depoimentos, mas a responsável garante que o projeto prosseguirá.

“Ainda existem muitas pessoas para ser entrevistadas”. E isso é importante, porque dar a conhecer as agruras e privações que passaram social, profissional, física e familiarmente, “apenas por pensar de modo diferente do regime em vigor na época”, é “um ato de cidadania e liberdade que pode contribuir para formar consciência crítica” e, sobretudo, “ajudar a evitar a repetição da História”.

Vista de um pátio pavimentado entre edifícios brancos, com andaimes junto a uma das fachadas. Ao fundo vê-se o mar sob um céu carregado de nuvens.
O projeto de recuperação da Fortaleza de Peniche prossegue, visando a plena instalação do Museu Nacional da Resistência e Liberdade, que devido à pandemia só acontecerá em 2021 Foto: MNRL

Por outro lado, nota Rosalina Carmona, tem sido “muito gratificante” perceber dos antigos detidos que “o seu esforço e sacrifício em prol do bem coletivo valeu a pena. O museu é a prova viva desse reconhecimento”.

Para a técnica superior, o mais surpreendente é mesmo a “alegria de viver” que revelam nas entrevistas, a par da “confiança de que, no futuro, a ditadura seria derrotada e a liberdade e o fim da Guerra Colonial chegariam um dia”.

Mas este exercício não serve para o MNRL tirar conclusões: “Propomos que quem ouve possa formular uma opinião informada”. E há muitas reações de surpresa à realidade contada ao museu de Peniche.

“Os mais novos, sobretudo, desconheciam que em Portugal houve um tempo que não existia liberdade e as pessoas eram presas apenas por pensar de maneira diferente da oficial. Não se podia pensar diferente, ou sofria-se as consequências”, recorda Rosalina Carmona.

Uma pessoa gesticula diante de uma câmara de vídeo durante uma gravação em espaço interior. O ecrã da câmara mostra o seu rosto em primeiro plano.
O antigo preso político José Pedro Soares durante a sessão de gravação da entrevista dada à equipa do museu de Peniche Foto: MNRL

Daí a importância de lembrar o que era viver sem democracia ou liberdade, nota Álvaro Ribeiro Monteiro na entrevista que deu à equipa do museu.

“Quem por aqui passou, estes homens, deram um grande contributo para a libertação deste país. Mas a maior parte [das pessoas, hoje em dia] não lhes passa pela cabeça o quanto custou e já estão a querer voltar outra vez a princípios parecidos… “.


Álvaro Ribeiro Monteiro, preso político


Vítor Pinto Lima, preso político


José Pedro Soares, preso político


José Tavares Marcelino, preso político


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