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Scroll infinito, atenção finita: o cérebro na era do TikTok

“O cérebro humano não foi desenhado para lidar com estímulos constantes, rápidos e imprevisíveis”, alerta a psicóloga Margarida Ferraz, que sugere um uso consciente da tecnologia.


Margarida Ferraz
Psicóloga Clínica
e da Saúde, especialista
em Adições Químicas
e Comportamentais
Leiria

Nunca foi tão simples aceder ao digital – e tão difícil desligar dele. O “scroll infinito”, popularizado por plataformas como o TikTok, transformou o modo como o cérebro humano gere atenção, prazer e tempo. À luz das neurociências, este fenómeno levanta questões profundas sobre dependência, autorregulação e saúde mental.

O cérebro humano não foi desenhado para lidar com estímulos constantes, rápidos e imprevisíveis. Cada novo vídeo ativa o sistema de recompensa, libertando dopamina – o neurotransmissor associado ao prazer e à motivação. No entanto, ao contrário de recompensas previsíveis – como receber o salário, beber um café pela manhã, ou fazer desporto – o conteúdo aleatório cria um padrão de reforço intermitente, semelhante ao observado em comportamentos aditivos, como é o caso do jogo. É esta incerteza – “o próximo vídeo vai ser ainda melhor” – que mantém o utilizador preso ao ecrã.

Do ponto de vista clínico, este padrão compromete a atenção sustentada e fragiliza funções cognitivas essenciais, como a memória de trabalho, o controlo inibitório e a capacidade de planeamento.

A exposição contínua a estímulos rápidos e fragmentados reduz a tolerância ao esforço mental, dificulta a concentração em tarefas prolongadas e favorece a impulsividade. Com o tempo, pode ainda afetar a flexibilidade cognitiva – a capacidade de alternar entre tarefas ou perspetivas – e diminuir a autorregulação, o que torna mais difícil resistir à distração e manter objetivos a médio e longo prazo.

Paralelamente, reduz a tolerância ao tédio e à frustração, o que agrava a dificuldade em atividades que exigem foco contínuo, como estudar ou ler.

Em crianças e adolescentes, cujos cérebros ainda estão em desenvolvimento, o impacto pode ser mais acentuado, comprometendo o desenvolvimento das funções executivas, incluindo o raciocínio e a capacidade de resolução de problemas.

Mas também há implicações emocionais. O consumo passivo e repetitivo pode levar a estados de ansiedade, insatisfação, frustração e comparação social constante. A mente habitua-se a um ritmo acelerado de estímulos e passa a interpretar o silêncio e a pausa como desconfortáveis. Parar torna-se, paradoxalmente, mais difícil do que continuar.

No entanto, também devemos evitar alarmismos. A tecnologia não é, por si só, o problema – mas sim a forma como é desenhada e utilizada. Estratégias simples, como definir limites de tempo, criar momentos livres de ecrãs e incentivar a atividades que promovam atenção plena, podem ajudar a reequilibrar o funcionamento mental.

Na era do scroll infinito, a atenção tornou-se um recurso escasso – e valioso. Recuperá-la não exige rejeitar a tecnologia, mas sim aprender a usá-la com consciência. Afinal, a capacidade de parar, escolher e focar continua a ser uma das competências mais humanas, e saudáveis, que temos.

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