O maior obstáculo ao desenvolvimento de Leiria talvez já não seja o centralismo de Lisboa. Pode ser a convicção, tantas vezes repetida, de que nada mudará enquanto não existir regionalização. É uma ideia confortável, mas errada.
A descentralização não começa em Lisboa. Começa quando os territórios decidem organizar-se, definir uma estratégia comum e agir como uma região, em vez de se limitarem a ser um conjunto de municípios.
Leiria já demonstrou que isso é possível.
A candidatura a Capital Europeia da Cultura e o projeto da futura Universidade de Leiria e Oeste mostraram que é possível mobilizar municípios, universidades, empresas e associações em torno de objetivos comuns, mesmo sem novos poderes legais. Quando existe uma ambição partilhada, o território ganha voz e capacidade de influência. Vejo isso na preparação de “Leiria Cultura”.
A segunda condição é a estratégia. Uma região que conhece as suas vantagens competitivas, identifica prioridades e fala a uma só voz tem muito maior capacidade para negociar investimentos, infraestruturas e competências junto do Estado.
O documento Leiria 2030 (coordenado por Carlos André) constitui uma boa base de trabalho. O desafio passa agora por transformá-lo numa verdadeira agenda regional, sustentada em conhecimento, inovação e cooperação entre o sector público, o tecido empresarial, a academia e a sociedade civil.
Por fim, importa compreender que o desenvolvimento económico nunca é obra exclusiva das autarquias. Atrair empresas, criar emprego qualificado, fixar jovens e aumentar a competitividade exige uma mobilização coletiva. A futura Universidade de Leiria e Oeste poderá ser um dos grandes motores dessa transformação, reforçando a ligação entre investigação, inovação e empresas.
Leiria possui vantagens que muitas regiões portuguesas gostariam de ter: uma localização privilegiada, uma forte tradição industrial, empresários dinâmicos, instituições de ensino de qualidade e uma sociedade civil particularmente ativa. O que falta não são recursos; é uma ambição regional suficientemente forte para unir todas essas capacidades.
A regionalização continua a ser um objetivo importante. Mas dificilmente será concretizada no curto prazo. Esperar por ela seria desperdiçar tempo e oportunidades.
Leiria deve continuar a defendê-la, mas não pode ficar dependente dela. Pode, desde já, construir uma governação regional baseada na cooperação, na competência técnica e na mobilização dos seus parceiros.
O centralismo combate-se também a partir das regiões.
O primeiro passo para vencer o centralismo é deixar de esperar por Lisboa.
Ricardo Charters-d’Azevedo
Leiria