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Mobilidade sustentável ou imobilidade imposta?

Para quem vive no centro, mais dez minutos são um transtorno. Para quem vive numa aldeia, podem significar perder uma consulta médica, faltar ao trabalho ou desistir de ir, escreve o leitor

FOTO: Arquivo

Vivi os primeiros 19 anos da minha vida na Alemanha, onde aprendi o que é ter transporte público que funciona. Hoje vivo numa freguesia rural do concelho de Leiria. Conheço, por isso, os dois lados da estrada — e é por isso que li o Plano de Mobilidade Urbana Sustentável (PMUS) com alguma perplexidade.

Ninguém é contra a mobilidade sustentável. Todos queremos menos trânsito, autocarros pontuais e cidades onde se possa respirar. O problema não é o objetivo, é o caminho escolhido para lá chegar. E este plano começa pelo fim: parte do princípio de que o carro é uma escolha de estilo de vida que se pode condicionar.

Para quem vive fora do centro, o carro não é uma escolha: é a única forma de sair de casa às cinco da manhã para um turno, levar os filhos à escola ou ir a uma consulta.

E que alternativa propõe o PMUS a estas pessoas? Transporte a pedido — bonito no papel, mas sem horários, custo ou tempo de espera esclarecidos, numa paragem, à noite, sem abrigo e com chuva.
Se uma viagem de 30 minutos de carro passa a demorar duas horas com transbordos, isso não é alternativa: é penalização, como se o problema fosse gostarmos demasiado do carro.

O plano pergunta quantos carros quer tirar das ruas. Devia perguntar antes quantas pessoas se podem libertar da necessidade de ter carro. São perguntas opostas: uma começa pela proibição, a outra pela solução.

Com transporte frequente e compatível com os horários de quem trabalha, as pessoas deixam o carro em casa por vontade própria.

Há ainda uma questão de justiça territorial que este debate ignora. Para quem vive no centro, mais dez minutos são um transtorno. Para quem vive numa aldeia, podem significar perder uma consulta médica, faltar ao trabalho ou desistir de ir.

Não quero Leiria condenada ao automóvel. Quero que tenha transportes suficientemente bons para que o carro deixe de ser obrigatório. Mas a ordem dos fatores importa: primeiro cria-se e testa-se a alternativa; só depois, se for realmente melhor, se restringe.

Não é isso que este plano propõe. O concelho começa muito para além das muralhas da cidade e é preciso estar lá às cinco da manhã para o perceber. Enquanto isso não acontecer, continuaremos a recusar o futuro com planos muito bonitos no papel.

Dinis Francisco
Leiria

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