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Reabilitar é palavra de ordem num sector em franco crescimento

Reabilitar é palavra de ordem num sector em franco crescimento

Conferência do semanário REGIÃO DE LEIRIA sobre reabilitação urbana reuniu especialistas e responsáveis do sector. Edifício Moagem Heritage foi palco para debate sobre desafios e oportunidades.

A reabilitação urbana é uma tendência em crescimento, o sector imobiliário vive um clima positivo e as apostas de qualidade têm espaço no mercado.

Esta é uma síntese possível das quatro horas de debate sobre reabilitação urbana, que dominaram a conferência de dia 25 de maio em Leiria, no Edifício Moagem Heritage. Da mesma forma que as intervenções de reabilitação de imóveis não podem ser sumárias, também o tema é avesso a simplificações e atalhos.

Os especialistas que participaram nesta iniciativa do REGIÃO DE LEIRIA deixaram bem clara a diversidade de desafios que se colocam. “Falar de reabilitação urbana é encarar novos desafios para velhos problemas”, enfatizou Francisco Santos, diretor do REGIÃO DE LEIRIA no arranque do debate.

E essa é uma preocupação no centro das políticas públicas, lembrou Rita Coutinho, vereadora da Câmara de Leiria com os pelouros das Operações Urbanísticas e do Centro Histórico. Tornar a cidade “mais dinâmica, competitiva, atrativa e inclusiva” passa pela reabilitação do centro histórico: “uma prioridade da intervenção” municipal, referiu.E as ARU – Áreas de Reabilitação Urbana são instrumentos valiosos nessa ação, explicou. Nas três ARU no concelho, concentram-se 1098 matrizes de prédios urbanos. Pouco menos que um quarto destes (197) encontram-se devolutos e degradados. Mas neste universo, quase 40 por cento (74) estão envolvidos em intervenções: com projetos em análise, obras concluídas ou a decorrer.

A vereadora salientou que a área da reabilitação é uma oportunidade para a cidade que, do ponto de vista topográfico, se apresenta como um postal: com o Castelo no centro das atenções. Com a constituição de âncoras no tecido urbano, através da reabilitação a cidade ganha vida. Anunciou ainda um canal de comunicação privilegiada com os interessados na reabilitação de imóveis, via e-mail  prometendo resposta em 48 horas.

Ana Paula Baptista, vogal suplente do Conselho Diretivo Nacional da Ordem dos Arquitetos, sublinhou, na sua intervenção, ser necessária uma reflexão sobre o que se entende como património, reconhecendo o seu papel como “estruturador da nossa memória”. As cidades, defende, devem ser pensadas de forma a permitir uma vivência participada. Não basta olhar apenas para a habitação, mas também para o habitat, enfatizou. O dinamismo atual do sector fica espelhado num indicador deixado por Carlos Mineiro Aires, bastonário da Ordem dos Engenheiros. Faltam 70 mil trabalhadores na construção civil, apontou. Em simultâneo, “temos 35 mil [trabalhadores do sector] inscritos nos centros de emprego”. É, entende, “um contrassenso”.

Por outro lado, centros históricos que são reabilitados enquanto avançam “despejos com contornos especulativos”, são alguns exemplos de desequilíbrios que estão a surgir. Por um lado, o Estado não pode esquecer o direito à habitação, mas os proprietários que “durante anos substituíram o Estado” praticando rendas baixas, têm direito a rentabilizar o seu investimento, entende. No imóvel palco da conferência, exemplo de uma ampla intervenção de reabilitação, Carlos Mineiro Alves, considerou tratar-se de uma “grande obra” e um bom exemplo. Mas também existem maus exemplos. É, defende, altura de elaborar um novo código de construção. “É um trabalho de dois a três anos e que tem de ser feito”, envolvendo os vários atores do sector. Reforçar a fiscalização é outra das medidas que defende.

 

Conferência reuniu especialistas e permitiu visita ao Edifício Moagem Heritage (clique na foto para ampliar)  Fotos: Joaquim Dâmaso

Hugo Santos Ferreira, vice-presidente da APPII – Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários, deixou clara a relevância do investimento imobiliário na economia nacional. Vale 11% do PIB do país, sendo que “Portugal está na moda a nível mundial”. E o mercado imobiliário continua a crescer a 20% ao ano, explicou, em boa parte graças ao investimento estrangeiro. França, Brasil, Inglaterra, China e Angola são os principais países investidores num sector que contou com a transação de 420 imóveis por cada dia do ano passado. A exposição solar, a gastronomia e a história do país, bem como a costa marítima e a hospitalidade são fatores que têm jogado a favor de Portugal. Bem como, claro, a segurança, explicou. A classe média e os estudantes são novas oportunidades, apontou. Para assegurar a sustentabilidade do sector, defende uma abordagem racional, “sem euforias”, e a estabilização dos quadros fiscal e legislativo.

Os grandes desafios de fazer renascer um ícone da cidade de Leiria

Quando se tem em mãos um imóvel de referência na cidade e se pretende avançar com um processo de reabilitação, quais os grandes desafios que se apresentam? A questão foi direcionada a Fernando Lopes e Betty dos Reis, promotores do Edifício Moagem Heritage, palco da conferência. Este é um imóvel que se encontra na fase final de construção e que ressurge onde em tempos o edifício da antiga Companhia Leiriense de Moagem – que para além de moagem, já foi prisão e convento – se inscrevia na identidade de Leiria.

Este é um processo moroso, explicou Betty dos Reis. O primeiro investimento aconteceu em 2004 e a construção só arrancou em 2015. Só o processo de pesquisa arqueológica prolongou-se durante 21 meses. Para além de ser de duração incerta – “sabemos quando as escavações se iniciam mas não sabemos quando acabam”, sintetizou – esta é uma fase onerosa, suportada na totalidade pelos promotores do investimento. Este foi um dos principais desafios de todo o processo e que redundou na recuperação de mais de 30 mil peças, “algumas centenas intactas ou bem conservadas”. 

Jaqueline Pereira, arqueóloga que esteve envolvida neste  projeto do Edifício Moagem Heritage, elogiou o processo aí vivido: “foi um processo árduo e está de parabéns, porque fez-se e reformulou-se muito bem, ao contrário de outras situações na cidade que correram menos bem”. No seu entender, “urge integrar o nosso passado”. Afinal, “uma cidade é um ser vivo, é preciso manter o espírito do local”.  Também a componente da arquitetura representou um desafio de monta, explicou Betty dos Reis.

“Reabilitações pequenas não são fáceis, agora numa área de 6 mil metros quadrados, com partes antigas de um convento e da moagem, não foi nada fácil”. Os rígidos imperativos legais que os promotores fizeram questão de cumprir, revelaram-se uma dificuldade acrescida, explicou. Fernando Lopes acrescentou a preocupação com a qualidade como um fator em que se apostou forte.

De igual forma, este investimento em Leiria encarou ainda o desafio de assegurar “uma visão de renovação” também direcionada aos diversos públicos, incluindo o estrangeiro. Os lusodescendentes de segunda e terceira geração foram alguns dos alvos: “são eles que têm ligação com esta terra, que trazem os amigos que primeiramente chegam de férias”, mas que acabarão por investir.

Paulo Santos, presidente da Aricop – Associação Regional dos Industriais de Construção e Obras Públicas, sublinha a relevância de projetos privados, incluindo na área da reabilitação, nesta nova fase do sector. A crise que se abateu no país, devastou o sector, muito concentrado num cliente, o Estado, que retraiu o investimento para valores mínimos. “A nível de investimento público, ele continua a não existir. Passamos de uma conjuntura de um cliente, para a iniciativa privada que alavanca o sector”, referiu.

Carlos S. Almeida
Jornalista
carlos.almeida@regiaodeleiria.pt

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