Alice, Beatriz e Jorge aceitaram partilhar as suas histórias de vida. Vidas marcadas pela dificuldade, pela dor mas também pela esperança e superação. As suas histórias estão contadas na primeira pessoa em “Para onde vai o tempo?”, livro que reúne os seus relatos e ainda textos de ficção e jornalísticos e ilustrações produzidos a partir destes casos concretos de contextos de vulnerabilidade.

A edição é um projeto do Núcleo Distrital de Leiria da EAPN Portugal – Rede Europeia Anti-Pobreza, com coordenação de Elsa Margarida Rodrigues, Paulo Kellerman e Patrícia Grilo, e foi apresentado este sábado, 15 de fevereiro, no mimo – Museu da Imagem em Movimento de Leiria.

“Ler estas narrativas extraordinárias de três pessoas”, sublinha a diretora executiva da EAPN Portugal, Sandra Faria Araújo, na introdução do livro, “faz-nos acreditar ainda mais que o nosso trabalho não só faz sentido como é urgente”.

Os testemunhos de vida “fazem refletir sobre este ‘carrossel’ que é a vida. Para compreendermos temos de conhecer. É importante ‘calçarmos os sapatos do outro’, ver por dentro. ao conhecermos as histórias da Alice, da Beatriz e do Jorge percebemos que nem sempre as histórias de vida das crianças são um conto de fadas”, acrescenta.

A acompanhar os relatos dos três elementos que integram o Conselho Local de Cidadãos do Núcleo Distrital de Leiria da EAPN, surgem três histórias imaginadas por Elsa Margarida Rodrigues, Mónia Camacho e Paulo Kellerman, três ilustrações de Lisa Teles, Manaia e Bruno Gaspar e três textos jornalísticos de Manuel Leiria, Nuno Henriques e Jacinto Silva Duro, jornalistas do REGIÃO DE LEIRIA, Diário de Leiria e Jornal de Leiria, respetivamente.

O livro inclui ainda um ensaio da psicóloga clínica Ana Gilbert, que analisa este exercício em que é dada voz a quem habitualmente não a consegue fazer ouvir. Para a especialista, este projeto artístico-literário-jornalístico tem, sobretudo, o mérito de se assumir como “um canal de expressão para que pessoas em condições de vulnerabilidade reencontrassem palavras para falar de si diferentes das que são ditas socialmente sobre eles (drogados, fracos, incapazes, desocupados, parasitas, etc), e não apenas para relatar factos”.

Trata-se, afinal, de um “processo de revelação pela escrita”, porque Alice, Jorge e Beatriz escolheram, à sua maneira, “o que contar e como”, contruindo “novos discursos de verdade sobre os seus corpos, pensamentos e formas de ser, resultando em novos rearranjos do eu”, nota a especialista.

Na sessão de apresentação, Jorge Cardinalli, um dos participantes e voluntário do Núcleo Distrital de Leiria, considerou o livro mais um contributo da EAPN para combater o preconceito:

“Vou muitas vezes falar as escolas do mal que é a droga e outros vícios. Mostramos aos miúdos que não devem ter preconceitos. A gente sabe bem que a nossa sociedade ainda tem muitos preconceitos em relação a muita coisa. Antes os pais davam educação aos filhos, mas hoje acho que os filhos é que dão educação aos pais. Têm mais preconceito os adultos do que as crianças…”, afirmou.

E, com “Para onde vai o tempo?” na mão, não hesitou:

“Este livro é o nosso Óscar e eu vou guardá-lo. Espero que o leiam e que se torne um best-seller!”.

“Para onde vai o tempo?” custa 5 euros e pode ser adquirido na sede do Núcleo Distrital de Leiria da EAPN/Portugal, em Leiria.