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O que fica de uma terra se não tiver quem a conte? 91 anos a contar Leiria entre o papel, a memória e o futuro

Que papel permanece para um jornal? Perguntámos a quem usa os jornais no nome. O segredo talvez seja o mesmo de sempre, por muito que o mundo mude: partilhar, informar e criar comunidade.

Primeira página do semanário «Região de Leiria», datada de 10 de outubro de 1935. Apresenta um texto de apresentação da publicação e anúncios de estabelecimentos e serviços de Leiria.
Primeira página da primeira edição do jornal nascido no início do outono de 1935

Há 52 anos que Ana Paula Gaspar vive entre jornais. Em Leiria. É conhecida como “Paula dos Jornais”. Tudo começou num quiosque, onde o papel chegava ainda com cheiro a tinta. Hoje, o espaço tem a alma de um café que continua a ver os jornais cada vez menos debaixo do braço dos clientes. A mudança não lhe passa despercebida.

“As pessoas compram menos jornais em papel. É uma pena, porque o jornal em papel não tem nada a ver com o jornal digital”, diz. Não é apenas uma questão de formato ou de hábito. Há uma experiência que se perde. Palavra de Paula dos Jornais: “Só o cheiro, a textura, tudo é completamente diferente”. O telemóvel trouxe a notícia imediata, disponível em qualquer lugar, a qualquer hora. A informação corre depressa, mas, para Paula, nem sempre chega mais longe.

Pelo meio, perdem-se as partilhas, as conversas que nascem de um jornal pousado em cima da mesa do café e lido por quem ali passa. Ana Paula Gaspar mantém o hábito de os ter ali. Porque há ainda quem mantenha o hábito de os ler. Afinal, um jornal não é apenas um suporte de informação: é também memória e identidade de uma comunidade.

No caso do Região de Leiria, essa memória tem história. Nasceu a 10 de outubro de 1935, fundado por José Baptista Santos. Começou por ser gratuito e dedicado à publicação de anúncios. No primeiro número, apresentava como propósito contribuir para o comércio e a indústria da região. Em 1939, passou a ser vendido: vinte números custavam vinte escudos. O jornal deixava de ser apenas uma folha de anúncios e começava a ocupar um lugar regular na vida de quem o lia. A mudança de formato não apagava a intenção original: falar de uma região e servir quem nela vive.

Os leitores, explica a Paula dos Jornais, procuram uma informação que não encontram noutro lado: mais próxima, mais atenta ao que se passa à porta de casa. Atualmente, aconselha a imprensa — nomeadamente a que mora em Leiria — a sentir a cidade. A ser irreverente e crítica. Os artigos que dão voz aos problemas da cidade e as crónicas que incomodam são a receita que prescreve. Uma cidade precisa de espaço para se olhar a si própria, discutir o que está mal e exigir mudanças.

A ideia de proximidade atravessa a história do jornal. Em 1990, quando Lucínia Azambuja assumiu a direção, o Região de Leiria modernizou-se: introduziu a impressão em rotativa e publicou a primeira imagem a cores na primeira página. Seis anos depois, já sob a propriedade do Grupo Lena, criou o primeiro sítio na Internet. Em 1997, a edição semanal passou também a poder ser lida online. O jornal começou a experimentar outro modo de chegar aos leitores, sem deixar de ser o jornal que se vendia em banca e se encontrava no café.

A mudança não foi apenas tecnológica. Em 1997, o título deixou o Terreiro e mudou-se para a Rua José Estêvão; o grafismo foi renovado, com novas rubricas e maior presença da cor e da imagem. No ano seguinte o atual diretor, Francisco Rebelo dos Santos, assumiu funções. Em 1999, o jornal lançou uma revista mensal e experimentou uma edição bissemanal: além de sexta-feira, passou a sair à terça-feira, para acompanhar também os acontecimentos desportivos. A experiência durou cerca de dez meses. Depois, regressou à periodicidade semanal. Afinal, os jornais mudam; os hábitos dos leitores também. Nem todas as mudanças, porém, ficam.

Com 91 anos, cumpridos no último sábado, o aniversariante REGIÃO DE LEIRIA procurou, nesse quiosque junto à Fonte Luminosa de Leiria, uma opinião que pode não sintetizar todas as visões sobre o que é um jornal, mas que tem a autoridade de um apelido conquistado com os anos.

Ali, na fonte, a água irrompe de quando em vez. Mas quando em setembro de 2002, Leiria ficou cinco dias sem ela, o jornal publicou uma edição extra para informar e esclarecer a população, dando conta de que o reabastecimento público de água estava prestes a ser retomado. É um episódio que ajuda a perceber a função de um meio local: não apenas contar o que acontece, mas procurar a informação de que as pessoas precisam. Mais tarde, em 2005, o jornal mudou-se para instalações maiores, junto à estação de comboios. Em 2013, regressou ao centro da cidade, onde permanece.

Memória comunitária que sobrevive

Quando a rádio ou o jornal da terra deixam de existir, não desaparece só um título: pode desaparecer também uma parte da informação que mantém uma comunidade a par de si própria. É uma preocupação presente nos estudos sobre os chamados “desertos de notícias”. O relatório do MediaTrust.Lab, da Universidade da Beira Interior, publicado em 2022, identificou 78 concelhos em situação de deserto ou semideserto e outros 88 ameaçados.

A atualização de 2025 apontou 45 concelhos em deserto, 38 em semideserto e 87 ameaçados. Os números variam com a metodologia e com as categorias utilizadas, mas revelam que a cobertura jornalística local continua a não chegar de forma regular a todo o território.

O Região de Leiria não ficou à margem das transformações. Em 2007, entrou nas redes sociais; em 2009, publicou o primeiro vídeo online. No ano seguinte, apresentou um novo grafismo e um formato mais pequeno, com mais espaço para a imagem. Em 2011, recebeu o Prémio Gazeta Regional, atribuído pelo Clube de Jornalistas. E, em 2017, uma fotografia de Joaquim Dâmaso sobre os incêndios de Pedrógão Grande foi distinguida em concursos da Society for News Design. A primeira página que a publicou recebeu uma medalha de ouro nos prémios ibéricos e da América Latina da organização.

Nesse mesmo ano, o jornal foi um dos cinco projetos nacionais contemplados por um fundo de inovação da Google. O projeto Repórter no Mundo procurava aproximar os cidadãos da região de Leiria da diáspora. A inovação, foi usada para manter a ligação entre uma comunidade e quem dela partiu. Em 2019, recebeu novo financiamento para desenvolver uma plataforma de publicidade digital.

Em 2020, durante a pandemia, o jornal renovou o seu sítio na Internet e lançou uma aplicação móvel para facilitar o acesso a notícias e artigos. Realizou também o primeiro evento exclusivamente online. No ano seguinte, estreou-se nos podcasts. O papel, a aplicação, o sítio, as redes sociais e o áudio passaram a coexistir. E este ano, quando a tempestade chegou, apontou-se o esforço editorial a reportar a catástrofe e a acompanhar as suas consequências. A pergunta de Paula, contudo, mantém-se: será que a multiplicação dos suportes garante, por si só, que a informação continue próxima?

Entre a partilha e a mudança

A revolução em marcha não se mede apenas na passagem do papel para o ecrã, mas também no modo como as notícias circulam. A partilha do jornal, acompanhado por um café e uma conversa, ou durante a espera num consultório ou no cabeleireiro, deu lugar, em alguns casos, à circulação de ficheiros digitais de publicações sem autorização. O acesso tornou-se mais fácil, mas nem todas as formas de partilha são legais, nem garantem que o trabalho jornalístico possa continuar a ser feito.

O caso até já chegou aos tribunais. Foi amplamente noticiada a existência de um grupo que terá reunido mais de dez mil membros e que é suspeito de distribuir ilegalmente jornais e revistas. Um emigrante português na Suíça e um militar da Força Aérea foram apontados como suspeitos de estarem ligados à rede. O processo, que este mês chega aos tribunais, inclui um pedido de indemnização superior a 630 mil euros. É que no mundo das partilhas, nem todas cumprem a mesma finalidade.

Mas, afinal, tão multifacetado, o que é um jornal? A Paula dos Jornais sintetiza: “É uma coisa que tu agarras, que tu sentes, que cheiras”.

É, num certo sentido, um ser vivo, membro da comunidade. Este, o Região de Leiria, que acaba de cumprir 91 anos, mudou de periodicidade, de instalações, de grafismo e de suporte.

A pergunta da Paula a quem os jornais deram o apelido de que se orgulha é imutável: o que fica de uma terra quando deixa de haver quem a observe, questione e conte a sua história?


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