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Escrevivendo: 1974 ? 2014

Certas efemérides, pelas vivências que evocam, anunciam-se-me na memória por fragmentos literários, quase sempre em verso.

Antonio-gordo
António Gordo, professor (ap.) antoniogordo@gmail.com

Certas efemérides, pelas vivências que evocam, anunciam-se-me na memória por fragmentos literários, quase sempre em verso. Pelo 25 de abril, é “Aquela triste e leda madrugada”, de Camões, e a glosa “E alegre se fez triste” de Manuel Alegre que me não largam. Porquê? Na madrugada de 25.04.74, madrugada triste como todas as passadas em plena guerra, despertei no leste da Guiné, não com as habituais “salvas” de foguetões 122, mas com a notícia da revolução em Lisboa. O espanto inicial depressa deu lugar à euforia e, numa explosão de esperanças, de triste se fez alegre aquela madrugada… Por uma vez senti-me bem no camuflado em que me amortalharam. E todos esquecemos a guerra, logo ali, até à imprudência que nos custou mais alguns feridos.

40 anos depois de preciosas conquistas cívicas e muito desgoverno, desperto num simulacro de democracia, num Estado faz-de-conta controlado por um bando de tiranetes imaturos, sem passado, mas caninamente fiéis às vozes dos donos. Já não é pessoa de bem este Estado. Descarta-se despudoradamente das suas funções essenciais. Burla e espolia os mais fracos para alimentar umas dúzias de monstros insaciáveis (partidos, PPPs, bancos, troicas e quejandos). Por isso é que aquela alegre madrugada se me faz cada vez mais triste…

E fico-me a inventar esperanças na sugestiva interrogação do cartão da Associação 25 de Abril que há dias recebi das mãos de um distinto capitão de Abril.

(texto publicado na edição de 24 de abril de 2014)