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Escrevivendo: O (des)embaraço da escolha

Durante muito tempo, se me perguntassem qual a maior con­quista demo­crática do 25 de abril, não he­sitaria em indicar o voto livre.

Antonio-gordo
António Gordo, professor (ap.) antoniogordo@gmail.com

Durante muito tempo, se me perguntassem qual a maior con­quista demo­crática do 25 de abril, não he­sitaria em indicar o voto livre. Pouco a pouco, porém, essa certeza foi dan­do lugar a um ceticismo amargo, à medida que a política se tornou um feudo dos partidos, que a transformaram num sistema blindado capaz de anular o efeito do voto livre. Esta evidência nem precisa­va das recentes teses de dou­to­ramento que vieram confirmar que em Portugal (como no resto da Europa, aliás) os eleitores não elegem senão os candidatos que os partidos lhes impõem, da mesma forma que, dentro dos partidos, as “bases” es­colhem os líderes propostos pelas respetivas comunida­des de eminências mais ou me­nos pardas, que os en­gendram num complexo cozinhado de interesses. O pior é esses interesses rara­mente coincidirem com os dos eleitores ou os do país, pois os eleitos logo esquecem o que prometeram ou fazem exatamente o contrário disso.

Assim, sempre que sou chamado a votar, vejo-me realmente embaraçado. Votar? Não votar? Em quem? Nulo? Branco? Sinto-me gozado por esta partidocracia que, cinicamente, quer que seja eu a indicar quais, dos mesmos que têm destruído este país, devem ser premiados com uma vida dourada de ordenados e reformas, imunes a qualquer austeridade, lá para Bruxelas e outras babilónias.

Mas vou votar, como sempre. De protesto, como nunca. Por isso, não há de ser em nenhum dos mesmos.

(texto publicado na edição de 22 de maio de 2014)