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Grupos de teatro criticam declarações do coordenador da candidatura de Leiria a Capital Europeia da Cultura

Paulo Lameiro está debaixo do "fogo" das companhias de teatro de Leiria

Paulo Lameiro é acusado pel'”O Nariz” de lançar um “feroz ataque” ao teatro de Leiria. Em resposta, o líder da candidatura a Capital Europeia da Cultura esclarece que se referia a “todas as áreas” artísticas: “O teatro é e será sempre uma âncora na cidade e na Rede Cultura 2027”, sublinha Foto: Joaquim Dâmaso

Manuel Leiria
Jornalista
manuel.leiria@regiaodeleiria.pt

A primeira entrevista do coordenador da candidatura de Leiria a Capital Europeia da Cultura (CEC) 2027 foi recebida com choque por três grupos de teatro da cidade. Te-Ato, Leirena e, sobretudo, “O Nariz” reagiram energicamente às declarações de Paulo Lameiro, surpreendido que os grupos, com quem já reuniu, desconheçam “o que existe e acontece ao seu lado” e espantando-se ainda com a falta de ideias para parcerias internacionais.

“O Nariz”, por Pedro Oliveira, considera que Lameiro lançou “um feroz ataque ao teatro”, defendendo que o projeto de Leiria CEC “nasceu torto e continua torto”, porque “os grupos de teatro não foram convocados para as primeiras reuniões”.

“Tudo o que disse [na entrevista] sobre teatro é mentira. Quando diz que não sabemos o que se passa à nossa volta, está pura e simplesmente a mentir, por desconhecimento ou propositadamente!”.

Garantindo trabalhar “há anos” em parceria com “todos os grupos de teatro, salvo uma ou outra exceção”, diz que a reunião d’”O Nariz” com a equipa da CEC foi “um monólogo, um movimento narcísico da parte dele [Paulo Lameiro]”, considerado pelo ator e encenador “um totalitarista” que “está a excluir áreas culturais” das estruturas da CEC.

“Trabalhamos com toda a gente de Leiria, participamos no Entremuralhas, na Porta, na Sinopse, fazemos coproduções com grupos de teatro amador e até criámos grupos de teatro que ainda existem na região”, descreve.

“O que fazemos pode ser não extraordinário, mas fazemos. Pode não ser sublime, mas fazemos. Pode não ser no fim do mundo, mas fazemos. Nós e os outros grupos de teatro daqui!”, exclama Pedro Oliveira.

A nível internacional, “O Nariz” manteve “uma rede de contactos há uns anos” que, “por outras questões, não a temos desenvolvido”, mas “já fomos fazer formação no exterior na Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Princípe, e eu já estive em Marrocos, França, Espanha a representar e fazer coisas. Não ando é a ir para os jornais a dizer que vou não sei onde! Qual é a necessidade disso?”.

Apesar das críticas, o “O Nariz” não se exclui dos trabalhos da CEC. “Estamos com disponibilidade total” porque “o projeto é maior do que a pessoa”. Porém, “neste contexto o diálogo não é possível. Estamos disponíveis para participar. Não temos é de nos cruzar com este indivíduo”.

“Não quero viver a cultura desta forma”

“Não me terei feito explicar bem ao Paulo Lameiro e às pessoas que o acompanharam”, diz João Lázaro. O responsável do Te-ato sublinha que a companhia sabe “muito bem” o que se passa à sua volta e trabalha “bastante” em parceria.

“Orgulhamo-nos de saber muito bem o que se passa à nossa volta e de trabalharmos em parceria. O nosso festival, com orçamento muito limitado, só é possível através de parceria e trabalho em rede. Trazemos cá as companhias e a contrapartida é nós oferecermos o nosso espetáculo à companhia, para pagar essa dfícivida”, explica.

“Eu e o Pedro Oliveira [d’”O Nariz”] até temos um projeto em comum, uma peça do Luís Mourão. Com o Pedro e a Encerrado para Obras, enviámos para o vereador [da Cultura da Câmara de Leiria] uma proposta para promovermos um festival de artes para a infância e juventude. E [a peça] ‘Confissões’ é feita com uma compositora portuguesa e músicos do Orfeão de Leiria…  Terei sido eu que não me terei explicado da melhor forma”, insiste.

Lázaro confessa que começa a ver “muita gente a virar as costas uns aos outros – e ainda faltam nove anos” para a CEC.

“Não quero viver a cultura desta forma. Começo a detestar pessoas. Estou a ficar zangado e não estou a gostar. Quero é fazer teatro. Sou um artista e não um fazedor de políticas. Isto vai trazer muitas inimizades”, desabafa, ironizando: 

“Por causa da CEC, as pessoas cultas na cidade estão a nascer como cogumelos em noite de chuva…”.

Por seu lado, numa reação por escrito, o Leirena Teatro não entende “as razões das afirmações tornadas públicas” por Paulo Lameiro. “Não nos revemos nas palavras proferidas”, assume o diretor Frédéric da Cruz Pires, revelando que o grupo tem atualmente um projeto para unir em parceria estruturas teatrais de cidades geminadas com Leiria e desenvolve um espetáculo a promover internacionalmente.

A posição integral do grupo pode ser lida aqui.

Em reação à tomada de posição dos três grupos de teatro após a entrevista, Paulo Lameiro diz compreender que “os agentes do teatro possam ter sentido que a minha observação se referia à sua área em concreto, porque surge no contexto em que contava ter reunido já com três dos grupos de teatro leirienses. Mas não o foi”. “O teatro é e será sempre uma âncora na cidade e na Rede Cultura 2027”, sendo “tão importante” que “os primeiros agentes culturais com quem agendamos encontros foi exatamente com os grupos de teatro”.

O responsável pela candidatura de Leiria a CEC garante que os elementos da sua equipa estão “muito conscientes da dureza que é navegar e construir caminhos em conjunto, mas também com o enorme desejo e vontade dessa aventura”. 

O esclarecimento do líder da candidatura de Leiria é reproduzindo na íntegra abaixo.

Reação de Paulo Lameiro

 

“Porque o TEATRO e TODOS nos importam”

A equipa que tem em mãos o REDE CULTURA 2027 colocou como primeiro objectivo de trabalho saber, e dar a conhecer, quem somos, onde estamos e o que fazemos. Importa articular e potenciar o que já se faz culturalmente em Leiria, e é muito, nomeadamente no teatro. Esse tem de ser o primeiro passo. Contudo, ao falar com os agentes culturais, todos eles e onde me incluo, observa-se uma falta de informação generalizada sobre o que está a acontecer. Compreendo, ao ler a entrevista, que os agentes do Teatro possam ter sentido que a minha observação se referia à sua área em concreto, porque na verdade surge no contexto em que contava ter reunido já com 3 dos grupos de Teatro leirienses. Mas não o foi. E numa leitura mais ampla, pode perceber-se, naquilo em que uma entrevista deste âmbito permite, que o fenómeno de desconhecimento de quem faz o quê e onde atravessa todas as áreas. Ainda que tenhamos de alargar muito o âmbito da cultura para fora das artes performativas, e da Arte em geral, o Teatro é e será sempre uma âncora na cidade e na REDE CULTURA 2027. Considero o Teatro tão importante que os primeiros agentes culturais com quem agendamos encontros foi exactamente com os grupos de Teatro, pelo que fazem e representam. Foram os primeiros de todos com quem decidi reunir. E por esse facto temos recebido alguns comentários de desagrado por não terem sido ainda ouvidas outras instituições culturais que no seu entender teriam prioridade. Entendamos-nos. Todos temos prioridade e todos temos lugar.

Sobre o modelo dos encontros que estamos a ter com os agentes culturais, importa esclarecer os seus objectivos e processo em que se integram. Antes de mais e em primeiro lugar, dar a conhecer, oferecer a informação, a todos os agentes, do que está a acontecer, de quem são as pessoas e a estrutura, quais os calendários e dossiers de toda a candidatura, e de que forma se prevê o envolvimento de todos. É na verdade um momento mais expositivo da nossa parte. Num segundo ponto, recolhe-se informação de cada agente, pessoa ou projecto. E nessa recolha registam-se todos os aspectos que o grupo, projecto ou pessoa considera importantes na sua actividade. Num terceiro momento, porque a curto prazo se vai investir um orçamento mais robusto na cultura, e importa clarificar critérios de apoio e processos mais participados na definição desses critérios, fazemos em conjunto o exercício de pensar em alguns desses critérios, avaliando de 0 a 5 cada um deles. É um exercício de reflexão.

Contudo, o mais significativo destes encontros é o processo que se lhe está a seguir. Nós fazemos uma transcrição síntese de tudo o que foi dito na reunião, e enviamos ao grupo para que este possa corrigir, anotar, ou fazer propostas e comentários que não foram possíveis no encontro. Seja porque determinado elemento chave não esteve presente, ou porque no contexto da reunião faltou referir algo importante. Deve acrescentar-se que para ajudar na síntese das ideias e propostas de cada grupo, todos os encontros são gravados com esse único propósito, se da parte de todos os participantes não houver inconveniente. Na verdade e até ao momento, só o Nariz Teatro, ainda que tenha aceite sem problema a gravação no dia, nos pediu por email no dia seguinte para apagar a gravação da reunião. Foi de imediato apagada. E tentámos fazer a melhor síntese com os registos escritos que guardámos. Já foram enviadas as primeiras transcrições aos entrevistados, e começamos a receber respostas anotadas, comentadas e novas ideias. Ideias que também podem ser sobre os processos. Ou seja, estamos a iniciar um programa com reuniões agente a agente, indo ao seu encontro, recolhendo identidades e sonhos, críticas e vontades, num processo aberto, multidireccional e dialéctico, muito conscientes da dureza que é navegar e construir caminhos em conjunto, mas também com o enorme desejo e vontade dessa aventura.

Paulo Lameiro
Rede Cultura 2027
Direção de Projeto
plameiro@cm-leiria.pt

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